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Terça-feira, 21 de Julho de 2009
Munique e Colónia à boleia

Nunca tinha andado à boleia (ou "à boleia da maneira moderna de andar à boleia"). Andei durante o fim-de-semana e gostei. Andar à boleia tem mais encantos que andar de comboio. E agora já sei.

 

Na Alemanha, o equivalente ao deboleia.com é muito popular. O link é mitfahrgelegenheit.de e é mesmo de confiança. Eu fiz, assim, Weimar-Munique, Munique-Colónia (num Audi!) e Colónia-Weimar (com um cão!) e gostei. A maior vantagem é que realmente dá para conhecer pessoas. As pessoas são obrigadas a falar umas com as outras, mesmo por uma questão de educação. E isso, obviamente, obriga a que se conheçam pessoas e traz muitas histórias para contar.

 

O rapaz que conduziu o carro em que fui até Munique era natural de Weimar. Foi uma novidade para mim conhecer pessoas mesmo de Weimar, por muito estranho que pareça. Mas até ele dizia que Weimar é uma cidade muito bonita e agradável desde que não se passe aqui demasiado tempo. Aliás, ele ia para Munique trabalhar porque já não conseguia estar muito tempo em Weimar. Eu fui para Munique porque já não conseguia estar mais em Weimar, estava a sentir-me claustrofóbica. (Mesmo agora, depois de voltar, continuo a sentir. Mas já só faltam 3 dias para deixar a cidade de Goethe, Schiller e da primeira Bauhaus.) Foi muito interessante ouvir pela primeira vez o testemunho de um verdadeiro "autóctone". 

Além disso, o rapaz sabia falar espanhol, já tinha trabalhado em Dublin e tem contactos na Lufthansa.

Resultado da primeira viagem à boleia pela Alemanha: aposta ganha.

 

A viagem seguinte, Munique-Colónia, também teve muito que se lhe diga. A viagem foi feita num Audi preto conduzido por um rapaz novo um pouco azeiteiro muito orgulhoso do seu carro. Antes da viagem, para acertar pormenores e pontos de encontro falei com ele umas três vezes e em todas elas ele realçou que tinha um "black Audi". Personagem muito interessante.

O carro ia cheio. Além de mim e do condutor, iam 3 outras pessoas que formavam um grupo muito improvável: um DJ austriaco que conhece pessoalmente os Buraka Som Sistema, um senhor imigrante da Polónia com cerca de 50 anos e uma professora de Música muito simpática. Fascinante. O senhor DJ era especialista em bebidas brancas e chocolate. Falou desses dois temas durante pelo menos uma hora. E quando eu disse que os Buraka Som Sistema eram portugueses ele quase que me queria bater: "não são nada! eles são nigerianos!". Eu calei-me, assustada, e encolhi-me no banco.

 

O senhor polaco de 50 anos ficou, não em Colónia, como os restantes passageiros, mas numa cidade próxima de Frankfurt. Ontem, em conversa com uma das minhas compinchas erasmeiras vinda da Polónia fiquei a saber que essa é a região para onde emigram os Polacos que vêm para a Alemanha. O senhor, quando eu disse que era portuguesa, disse que conhecia uma cantora portuguesa dos anos 70 cujo nome não se lembrava mas que tinha uma música que soava a qualquer coisa como "no te pass, no te pass". Apeteceu-me rir às gargalhadas. Mas tive vergonha. Mais tarde, ainda durante a viagem, o senhor foi ao youtube com o seu telemóvel e encontrou o vídeo da música de que estava a falar. A música era espanhola e o vídeo, apaixonante. Super anos 70, quase eurovisivo. O que a senhora dizia, na realidade, era "no te vas, no te vas". Ser espanhola feriu um pouco o meu orgulho português, mas perdoei.

Antes de se lembrar do telemóvel e de dizer "incrível, o que se pode fazer hoje com a tecnologia", enquanto ouviamos no rádio um daqueles programas de 'músicas pedidas', ele lembrou-se de ligar para a rádio para pedir a tal música. Não é querido? Felizmente sempre que ele tentou o telefone estava impedido.

 

A senhora professora de música era uma pessoa muito interessante e super simpática. Tão simpática que no dia seguinte me andou a mostrar Colónia e a explicar o funcionamento da cidade. Por outras palavras, ela foi a minha guia turística. E (eu achava que isto era impossível na Alemanha) até me pagou um eiscafé! Com ela, ainda fui a um concerto de piano e violoncelo numa das mil igrejas de Colónia. Agora tenho o email dela e quase somos amigas.

 

Não é maravilhoso o que acontece quando se anda à boleia?

 

Na viagem seguinte, Colónia-Weimar iam o senhor condutor, operário frustrado, daqueles que tem opinião em relação a tudo e acha que o alemão deve ser impingido aos turistas. A certa altura recusou-se a falar inglês. O que até nem foi mau de todo para eu treinar o meu alemão básico. Se bem que, durante a viagem, o tempo que não passei a dormir, passei calada a ouvir a minha música. Sim, fui anti-social, mas com o meu pobre alemão pouco mais podia fazer.

As outras duas personagens no carro eram uma senhora com os dentes enegrecidos do tabaco, de cabelo com duas cores, mini saia e botas de cano alto que não falava inglês. E espero que esta descrição seja suficiente para esclarecer de que "tipo de pessoa" se tratava...

Havia ainda um senhor recentemente divorciado e um pouco traumatizado em relação ao divórcio que quase contou toda a história da sua vida, ou pelo menos as razões do seu divórcio. Porque contou em alemão só percebi metade, ainda assim, deu para perceber que os dois senhores se divertiram muito a falar mal das mulheres em geral. O que é interessante, pensando que ambos são homens da Europa de Leste, ou seja, homens que não se aproximam de mulheres e quase têm medo delas, homens que dizem duma mulher latina coisas como "ri-se demais e estabelece demasiado contacto, toca num homem demasiado, mesmo sem o conhecer bem". 

 

Além das pessoas, também foi giro andar em auto-estradas sem portagens nem limites de velocidade, onde as pessoas realmente conduzem de acordo com as capacidades do seu "auto", e onde circulam carros de sítios tão diferentes como a Suécia, Reino Unido, Dinamarca, Roménia, Polónia ou Bélgica.

 

 

E pronto, depois desta análise quase sociológica das minhas experiências à boleia pela Alemanha, prometo para breve uma pequena descrição daquilo que foi "a Maura em Munique e em Colónia"...



publicado por Undómiel às 11:56
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Sexta-feira, 22 de Maio de 2009
Bike Trip

 Definitivamente sou adepta de "Bike Trips". Devia fazer mais.

Tudo começou há quase um ano, assim. Em Fevereiro/Março passados fui à holanda. E como sempre me disseram "na Holanda, sê Holandês", um dos dias foi precisamente dedicado à exploração de parte do país em cima da bicicleta, assim. Ontem, pela primeira vez na Alemanha, dei um uso mais intensivo à minha bela Arabella, rosa, roxa e ferrugem. E que belo que foi!

 

Pela Alemanha, como na Holanda, existem vários percursos demarcados para bicicletas. Percursos longos e com características específicas. O que percorri ontem, juntamente com alguns dos meus colegas erasmus, foi um dos percursos ao longo do rio Ilm, o que banha Weimar. O percurso chama-se, traduzindo "vale do Ilm".

ver mapa

 

Não é exactamente o que está assinalado no mapa, mas próximo, as localidades que atravessámos são essas. E a distância não será muito além dos 20 Km.

O programa era percorrer o Ilmtal entre Weimar e Kranichfeld e voltar de comboio.

O percurso é muito bonito. Atravessa aldeias, campos e floresta e leva-nos ao verdadeiro coração da Alemanha. Ontem, um coração em festa, o que tornou a viagem ainda mais divertida.

Cruzámo-nos com muitos grupos de pessoas a festejar o dia do Homem e parámos em duas festas. Numa delas estivemos uma hora. Festa muito peculiar, essa. Além da normal cerveja e dos homens havia também música e um estranho one-man-show. O anfitrião e protagonista do espectáculo era um senhor que podia muito bem ser português: baixinho, barba grisalha e bêbedo. A certa altura agarra uma guitarra, simulou que tocava e começou a cantar por cima de uma música alemão aparentemente muito popular. Depois, veste uma saia, põe uma peruca aos caracóis, semelhante à que os palhaços falsos do carnaval usam mas em louro, e canta por cima de uma qualquer música cantada por uma mulher, com voz aguda. Estranho e hilariante, mas rápido. Quando o senhor acabou o seu espectáculo seguimos o nosso caminho através de campos e florestas, novamente, sob ameaça de chuva, até Kranichfeld. Uma vez em Kranichfeld, a primeira preocupação foi encontrar um "Biergarten" (tasco com jardim interior=esplanada onde se pode beber cerveja e, eventualmente, comer). Fomos parar a um sítio, mais uma vez, muito peculiar. Quase hino ao Kitsch, diria eu. Guardanapos laranja com bolinhas, cortinas de renda na porta, renda e flores nas cortinas das janelas, cadeiras de bambu com almofadinhas a condizer com as cortinas na sala de jantar interior e toalhas de mesa com igual padrão. A senhora que servia à mesa e que julgo que era também a dona do sítio, envergava um vestido de padrão igualmente floral com uma fita rosa, num estilo alemao-antigo. Cenário fascinante mas má cerveja, que nos mandou de volta para Weimar.

Foi uma bela Bike Trip. E quero fazer mais coisas destas!



publicado por Undómiel às 16:06
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Man's Day

A Alemanha é um país um quanto machista.

Começando na língua: a palavra para "menina" não é do sexo feminino mas sem neutra e a palavra para rapaz é masculina. E depois nas tradições.

Ontem foi feriado nacional. Religioso. Assinalou-se o dia em que Jesus Cristo subiu aos céus. Mas a verdadeira celebração era outra. Celebrou-se, à boa maneira masculina e alemã, o dia do Homem.

A boa maneira masculina e alemã de celebrar o dia do homem é juntar os amigos e sair para beber cerveja até à exaustão. Grupos de jovens reúnem-se com carros de mão cheios de bebidas e vão de aldeia em aldeia fazer a festa. Às 10h já se bebe por aqui. E aos 13 anos, aparentemente, também. A alternativa a esta forma de festejo é reunir os amigos , homens, em festas pontuais onde o ingrediente principal é a cerveja e passar lá o dia (um pouco à moda das festas da terrinha em Portugal, mas sem a música pimba). Quando chega a hora do jantar regressa-se a casa. E durante o regresso é preciso dar provas de masculinidade e de bebedeira. Isso passa, por vezes, por dar porrada em pessoas aleatórias mas igualmente bêbedas e do sexo masculino ou, então, puxar o travão de emergência do comboio que está cheio e obrigar a uma paragem de uns quantos minutos. Vale que não se metem com estrangeiros ou, se metem, são simpáticos e falam um alemão simples para os estrangeiros perceberem e pensarem que os alemães são simpáticos.

 

E afinal, acabei de descobrir, oficialmente é dia do pai!



publicado por Undómiel às 15:51
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Quarta-feira, 6 de Maio de 2009
Projecto porno

 Hoje foi o dia em que cada aluno apresentou aquilo que queria fazer com 3DTV. Cada aluno apresentou uma ou mais ideias. Umas mais interessantes que outras, umas mais técnicas e outras mais preocupadas com as narrativas, mas havia de tudo.

Pelo que me apercebi, os alemães começam agora a conhecer-se e a dar-se uns com os outros. Talvez devido à barreira linguística, eu e as 3 chinesas que parecem fazer mesmo tudo juntas, não fomo assim tão integradas. Mas hoje foi um pouco diferente. Não passei a estar plenamente integrada no grupo, mas muitas pessoas começaram a falar comigo. A razão é bonita e reveladora do mais que mais intrínseco há na raça humana.

Eu apresentei três ideias. Uma delas era o desenvolvimento de um jogo em 3d em que o espectador/jogador é, realmente, a personagem, sem avatars e é ele que faz os movimentos que lhe permitem avançar no jogo (sim, isto envolve muita tecnologia e é complicadinho - impossível em tão pouco tempo). A outra ideia era a realização de um filme que na verdade são vários, variando a história/perspectiva com a perspectiva do espectador (inspirada por um episódio de Simpsons em que o dia é contado várias vezes, pelos vários membros da família). E a terceira ideia, a que quase fez o meu mundo mudar porque toda a gente quis falar comigo, foi: fazer um filme pornográfico estereoscópico. Quando eu disse a palavra "porn", depois dos risos, surgiram os gritos "I'll do it!", "the question is: who will be the female actress?", etc... Estive calada durante quase um minuto até poder continuar a explicar as coisas. Os profs adoraram.

As pessoas, em certos aspectos, são iguais em todo o lado...



publicado por Undómiel às 18:54
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Quinta-feira, 16 de Abril de 2009
a minha primeira vez num cinema 3d e o que se seguiu

 Ontem a minha turma de projecto foi ao cinema. Foi uma visita de estudo, para vermos como se faz, hoje, 3d no cinema. 3d esse que vamos, durante o semestre, explorar e adaptar à televisão, para perceber as possibilidades e limitações da tv do futuro, 3dtv.

Na verdade, já vi um filme em 3d, mas foi há muito muito tempo, no Pavilhão do Futuro, creio, na Expo'98. Foi há muito tempo e já mal me lembro. Também já fui a um IMAX, mas também é uma coisa completamente diferente, por isso, encarei esta sessão como a primeira num cinema 3d.

Depois de ler umas quantas coisas sobre 3dtv e equipamentos, tinha algumas expectativas. Julgava que a industria estava já altamente avançada. De facto, está, mas não tanto como eu julgava. Ainda assim, foi interessante e deu para perceber muita coisa, mesmo sendo um filme de animação e em alemão.

O filme era Monsters vs Aliens, a mais recente animação da dreamworks. Tecnicamente irrepreensível, no que diz respeito à animação, já no usufruto do 3 deu diria deixar um pouco a desejar. Em certos momentos o 3d estava mesmo interessante e as personagens saíam da tela e dirigiam-se ao espectador, outras vezes, em momentos em que fazia sentido que o mesmo acontecesse, não acontecia. Mas também não tenho outro ponto de referência, estou apenas a comparar com as minhas expectativas. Àparte dos aspectos técnicos, o filme cumpre a sua função, está cheio de referências cinéfilas simpáticas, desde Shreck (um pormenor no uniforme de uma das personagens) até Encontros Imediatos de Terceiro Grau, de forma não tão subtil, e a E.T. ou Indiana Jones. A história, no entanto, não surpreende. Mas também não é surpresa que se espera de um filme deste género.

 

 Depois do filme, algo completamente diferente (mas só para mim): os alunos saíram com os professores e todos falaram como se de uma saída de amigos de longa data se tratasse. Foi, provavelmente, das saídas mais interessantes que já fiz em Weimar. Definitivamente, a minha vida académica em Weimar rege-se por padrões bem diferentes dos portugueses. Mas era disso que eu vinha à procura, e é essa uma parte da definição de "Erasmus".

Definitivamente, gosto da Alemanha.



publicado por Undómiel às 14:27
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Sábado, 11 de Abril de 2009
As palmas alternativas

Sob a forma de pancadinhas na mesa ou na cadeira têm mesmo um fundamento. E hoje fiquei um pouco mais próxima dele. Afinal é uma coisa alemão e é usada até no parlamento e é aí que alguns dizem começar a sua história.

Mais detalhes sobre esta investigação em breve. 



publicado por Undómiel às 01:56
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Sexta-feira, 10 de Abril de 2009
A minha Arabella

E porque muitos queriam saber como era a minha nova bicicleta rosa, roxa e ferrugem, cá fica:

 


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publicado por Undómiel às 18:24
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The Reader / Der Vorleser ou A primeira ida ao cinema em Weimar

Ontem fui pela primeira vez ao cinema na Alemanha. Fui sozinha e estive sozinha. Assim se vê quão pequena é a cidade de Weimar. Fui às 17h15 (sim, eu sei que também não é a melhor hora, mas mesmo assim...) a um cinema muito peculiar, não muito longe da minha residência, ver, dobrado em alemão, The Reader, o filme que deu o Oscar a Kate Winslet.

 

Para começar, o facto do cinema ser "peculiar" já deixava adivinhar uma sessão de cinema, também ela, "peculiar". Depois, quando percebi que ia assistir sozinha, a sessão passou de "peculiar" a "quase surreal". 

O cinema onde fui é este. Instalado numa antiga fábrica, é qualquer coisa entre o cinema oita em Aveiro e a Lx Factory. Basicamente, é um sítio que eu descreveria como "buéda indie".

Cheguei ao edifício mesmo em cima das 17h15. Pensava que o filme estaria a começar, afinal os alemães são muito pontuais. Não. Depois de entrar na fábrica, passando por umas grandes cortinas pretas misto de cortinas de teatro e cortinas de entrada de igreja, deparo-me com um pequeno hall com um bar do lado direito, cartazes dos filmes em exibição do lado esquerdo e mais nada. Nem uma viv'alma. Digo "Hallo". De repente surge, numa varanda que me tinha passado despercebida, por cima do balcão do bar, um homem. Ele diz qualquer coisa em alemão, que eu não percebo, e desaparece. Espero alguns segundos e procuro uma maneira de chegar ao novo patamar de onde o senhor tinha aparecido. Encontrei. Depois do balcão há umas escadas. Subo. Encontro o senhor. Ele fala um pouco de inglês. Estava ali sozinho, a enrolar negativos. É ele que faz tudo ali. Trata da projecção, dos bilhetes e de tudo o resto. Disse que gostava de ver o filme. Ele disse "sabes que é em alemão, não sabes?". Eu sabia. Vendeu-me o bilhete e explicou-me onde era a sala. Entrei noutra porta econdida do hall onde a história começou, perto das cortinas, passei por um corredor iluminado por luzes cor de laranja, à moda do Pedro Cabrita Reis e entrei na sala de cinema propriamente dita. A sala não era muito grande e os bancos azuis eram confortáveis. Estava absolutamente vazia. A sessão ia mesmo ser só para mim. Sentei-me mesmo por baixo da janelinha onde nascia a projecção. A sessão e Der Vorleser foram só para mim.

Desde o tempo dos Power Rangers que não via alguma coisa dobrada durante tanto tempo. Como o meu alemão ainda está num estado embrionário não percebi nem metade daquilo que se disse no filme, mas percebi a história. Percebi tão bem que chorei. Nesse momento pensei "ainda bem que vim sozinha e ninguém vai gozar comigo por estar a chorar".

 

Der Vorleser ou The Reader é um filme que faz muito mais sentido visto na Alemanha e em Alemão. O filme deveria ser em alemão, na verdade. A acção é repartida por uma série de locais na Alemanha de anos diferentes. Pela primeira vez assisti a uma proposta de dilema relativamente ao Holocausto, uma afirmação do poder de manipulação da literatura, do cinema ou do amor, não sei bem. O que é certo é que, pela primeira vez, o nazismo não foi encarado de maneira simples e extremista, mas sim como uma coisa complexa que tem muito que se lhe diga e diferentes abordagens. Um tema que é universal e alemão, um tema que faz sentido depois de visitar um campo de concentração, mesmo que não Auschwitz, e perceber melhor o que foi o Holocausto. Quem não visitou sairá da sala de cinema, creio, impressionado, incomodado e tocado. Eu saíria, mesmo que não aguentasse o filme todo e assistisse apenas à sequência em que o protagonista visita Auschwitz. Aí senti, por vezes, que estava a ver mais do que precisava. Mas não. Eu precisava de ver aquilo tudo para que o filme me tocasse como tocou. O senhor Stephen Daldry sabe o que faz.

 

Quando o filme acabou, depois de uma boa dose de créditos para secar as lágrimas, saí da sala. Na varanda estava o senhor a espreitar, para se certificar que eu já tinha saído da sala para poder parar a projecção. Eu disse "Danke. Der Film ist sehr gut!" e ele respondeu "schön!". E fui para casa feliz, debaixo de um belo e quente fim de tarde.



publicado por Undómiel às 13:03
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A sexta-feira só é santa...

...quando os meus planos são estragados. 

 

Fui eu toda contente para a estação de comboios hoje, de máquina atrás, para visitar Jena, uma cidade não muito longe de Weimar, na minha bicicleta nova e cor-de-rosa. Como chego à estação 5 min antes do comboio partir penso "tenho tempo, vou tirar uma fotografia à bicicleta, já que tanta gente quer saber como ela é". Saco da máquina, ligo-a e nada. A máquina não funciona. Provavelmente é só falta de bateria. Ainda assim, estragou-me os planos. Voltei para casa.

 

Agora estou em casa, deprimida, a escrever aqui e à espera que a bateria da máquina carregue.

É a isto que eu chamo "sexta-feira santa".


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publicado por Undómiel às 12:35
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Sexta-feira, 20 de Março de 2009
Bauhaus - a Univ e a História

Ontem tivemos direito a uma visita guiada ao edifício principal da Bauhaus em Weimar. Mais uma vez, oportunidade para aprender mais sobre a história da Universidade, da cidade, da Alemanha e do Mundo.

 

A Bauhaus para onde vim é, tal como tudo o resto neste país, uma recuperação daquilo que a bauhaus foi há 90 atrás com adaptações ao tempo actual. Mas a história e o percurso da escola é muito interessante. E o rapaz que a explicou também ajudou. Futuro arquitecto, de aspecto tipicamente alemão, era muito agradável à vista e simpático.

 

Pois muito bem.

O edifício central da Bauhaus em Weimar já existia antes do nascimento da escola. Era a sede da escola de artes que aqui existia no início do século, uma escola clássica, normal. Em 1919, Walter Gropius, julgo que a convite do duque que tomava conta da cidade na altura veio para Weimar e começou a Bauhaus.

A Bauhaus, berço de muitas ideias que revolucionaram as artes em geral, da pintura à arquitectura, pretendia ser um local de reunião das artes e das disciplinas. Gropius defendia que as artes estavam todas ligadas entre si e foi essa a filosofia da Bauhaus desde o início e foi essa filosofia que nos anos 90, quase decidiram fazer renascer a Bauhaus aqui, quiseram recuperar. Os ateliers e workshops são de livre acesso e estou mortinha para poder experimentar... A faculdade de media nasce na última década do séc XX precisamente sob o pretexto da reunião das artes para hoje me acolher.

 

Continuando, em 1919, Walter Gropius tornou-se o director-fundador da Bauhaus, escola de artes revolucionária. Esta universidade foi uma das primeiras a aceitar mulheres e as ideias partilhadas pelos professores nada tinham a ver com o classicismo a que a escola anterior e a cidade estavam habituados. Foi inovação a mais para uma cidade tão pequena. É certo que Weimar sempre foi uma cidade de mecenas e das artes mas a Bauhaus era demais para Weimar, principalmente numa altura em que o país ainda estava a recuperar da primeira guerra mundial e com uma crise a instalar-se novamente. Diz-se que os pais diziam às crianças de Weimar que, se não se portassem bem, as punham na Bauhaus. As pessoas tinham medo. E foi por isso que no início dos 20's se fez a famosa exposição da Bauhaus, com os trabalhos dos alunos num edifício projectado e construído de propósito para a ocasião, junto ao rio que divide Weimar em duas partes, o rio Ilm. E assim a população perdeu algum medo.

Com a chegada de Hitler a Weimar e ao poder nesta região, foi enviado para a Bauhaus um novo director, Nazi, que procurou apagar a Bauhaus e o seu legado. A Bauhaus mudou-se para Dessau, cidade rica e liberal e, em Weimar, o novo director, transformou a escola numa escola de arquitectura e destruiu tudo o que lembrasse a bauhaus, pinturas nas paredes dos edifícios, mobiliário e trabalhos diversos aí realizados. Hoje é possível ver algumas destas coisas graças a estudos e recuerações feitas nos anos 90. Nessa altura descobriram-se as pinturas por debaixo das camadas de tinta nazi e recuperou-se algum mobiliário. O escritório de Gropius que hoje se visita julga-se igual e no local do original graças a esses mesmos estudos.

O escritório de Gropius é, numa palavra, genial. O senhor pegou numa divisão do edificio que já existia e aplicou-lhe um tratamento arquitectónico e decorativo de mestre. Dividiu a sala de maneira a formar um cubo perfeito e cada área desempenha uma função. E eu nunca vou conseguir mostrar o quão genial era o senhor e quão genial é uma coisa tão aparentemente trivial como o seu escritório.

Depois de Dessau, com a expansão do Nazismo, a Universidade mudou-se para Berlim e, depois Chicago. Mas as diferenças culturais não a deixaram ser bem sucedida. Nos anos 90 regressa às origens. E a partir daqui já contei.



publicado por Undómiel às 22:18
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