pesquisar   


Sexta-feira, 4 de Março de 2011
Oscar e eu, versão gourmet

Aviso: o título pouco ou nada tem a ver com o conteúdo que se segue.

 

É curioso que, agora que estou a 2819 Km de casa (cálculo google maps), consumo produtos portugueses de qualidade superior àquela dos produtos que consumo correntemente em Porugal. Isto porque, por qualquer razão, a minha mãe insiste em enviar-me coisas quase gourmet vindas do país de Camões.

 

Por isto, quando receber um prémio importante na minha vida e tiver direito a um tempo de discurso à la Oscares, uma coisa vou incluir, com certeza, nesse discurso: um grande agradecimento à minha mãe. Até aqui nada de novo, toda a gente o faz. No meu caso, no entanto, o agradecimento vai ser um pouco mais específico. Vou agradecer à minha mãe por, enquanto eu morava em Copenhaga, me enviar os melhores queijos de Portugal.



publicado por Undómiel às 14:15
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 10 de Abril de 2009
The Reader / Der Vorleser ou A primeira ida ao cinema em Weimar

Ontem fui pela primeira vez ao cinema na Alemanha. Fui sozinha e estive sozinha. Assim se vê quão pequena é a cidade de Weimar. Fui às 17h15 (sim, eu sei que também não é a melhor hora, mas mesmo assim...) a um cinema muito peculiar, não muito longe da minha residência, ver, dobrado em alemão, The Reader, o filme que deu o Oscar a Kate Winslet.

 

Para começar, o facto do cinema ser "peculiar" já deixava adivinhar uma sessão de cinema, também ela, "peculiar". Depois, quando percebi que ia assistir sozinha, a sessão passou de "peculiar" a "quase surreal". 

O cinema onde fui é este. Instalado numa antiga fábrica, é qualquer coisa entre o cinema oita em Aveiro e a Lx Factory. Basicamente, é um sítio que eu descreveria como "buéda indie".

Cheguei ao edifício mesmo em cima das 17h15. Pensava que o filme estaria a começar, afinal os alemães são muito pontuais. Não. Depois de entrar na fábrica, passando por umas grandes cortinas pretas misto de cortinas de teatro e cortinas de entrada de igreja, deparo-me com um pequeno hall com um bar do lado direito, cartazes dos filmes em exibição do lado esquerdo e mais nada. Nem uma viv'alma. Digo "Hallo". De repente surge, numa varanda que me tinha passado despercebida, por cima do balcão do bar, um homem. Ele diz qualquer coisa em alemão, que eu não percebo, e desaparece. Espero alguns segundos e procuro uma maneira de chegar ao novo patamar de onde o senhor tinha aparecido. Encontrei. Depois do balcão há umas escadas. Subo. Encontro o senhor. Ele fala um pouco de inglês. Estava ali sozinho, a enrolar negativos. É ele que faz tudo ali. Trata da projecção, dos bilhetes e de tudo o resto. Disse que gostava de ver o filme. Ele disse "sabes que é em alemão, não sabes?". Eu sabia. Vendeu-me o bilhete e explicou-me onde era a sala. Entrei noutra porta econdida do hall onde a história começou, perto das cortinas, passei por um corredor iluminado por luzes cor de laranja, à moda do Pedro Cabrita Reis e entrei na sala de cinema propriamente dita. A sala não era muito grande e os bancos azuis eram confortáveis. Estava absolutamente vazia. A sessão ia mesmo ser só para mim. Sentei-me mesmo por baixo da janelinha onde nascia a projecção. A sessão e Der Vorleser foram só para mim.

Desde o tempo dos Power Rangers que não via alguma coisa dobrada durante tanto tempo. Como o meu alemão ainda está num estado embrionário não percebi nem metade daquilo que se disse no filme, mas percebi a história. Percebi tão bem que chorei. Nesse momento pensei "ainda bem que vim sozinha e ninguém vai gozar comigo por estar a chorar".

 

Der Vorleser ou The Reader é um filme que faz muito mais sentido visto na Alemanha e em Alemão. O filme deveria ser em alemão, na verdade. A acção é repartida por uma série de locais na Alemanha de anos diferentes. Pela primeira vez assisti a uma proposta de dilema relativamente ao Holocausto, uma afirmação do poder de manipulação da literatura, do cinema ou do amor, não sei bem. O que é certo é que, pela primeira vez, o nazismo não foi encarado de maneira simples e extremista, mas sim como uma coisa complexa que tem muito que se lhe diga e diferentes abordagens. Um tema que é universal e alemão, um tema que faz sentido depois de visitar um campo de concentração, mesmo que não Auschwitz, e perceber melhor o que foi o Holocausto. Quem não visitou sairá da sala de cinema, creio, impressionado, incomodado e tocado. Eu saíria, mesmo que não aguentasse o filme todo e assistisse apenas à sequência em que o protagonista visita Auschwitz. Aí senti, por vezes, que estava a ver mais do que precisava. Mas não. Eu precisava de ver aquilo tudo para que o filme me tocasse como tocou. O senhor Stephen Daldry sabe o que faz.

 

Quando o filme acabou, depois de uma boa dose de créditos para secar as lágrimas, saí da sala. Na varanda estava o senhor a espreitar, para se certificar que eu já tinha saído da sala para poder parar a projecção. Eu disse "Danke. Der Film ist sehr gut!" e ele respondeu "schön!". E fui para casa feliz, debaixo de um belo e quente fim de tarde.



publicado por Undómiel às 13:03
link do post | comentar | ver comentários (4) | adicionar aos favoritos

Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009
e agora algo menos sentimental: os óscares

Talvez o titulo deste post devesse ser "e agora algo mais político: os óscares".

 

 

Desta vez a grande aposta dos senhores por detrás dos Oscar era a cerimónia em si, que se anunciava como "completamente diferente" das dos últimos anos, que tinham provocado um desinteresse geral. De facto, assim foi. E foi muito bem. Uma bela cerimónia.

Estava eu à espera que a transmissão começasse lá para as 3h, como costuma acontecer, quando, por acaso, depois de acordar de uma sesta, à 1h, decidi fazer zapping. Parei na TVI e estavam um moreno Hugh Jackman com uma afinada Anne Hathaway no meio de um número musical que imediatamente me prendeu. A cerimónia de entrega dos Oscar tinha começado. Depois desta bela surpresa, anuncia-se o nome da vencedora do prémio de melhor actriz secundária de uma forma absolutamente nova e muito interessante. O modelo dos cinco apresentadores foi uma aposta ganha. Mesmo quando esses cinco inclui uma Sophia Loren um tanto acabada que leu o seu texto sem qualquer expressividade. Palmas para os responsáveis pela cerimónia, definitivamente. O mesmo já não digo em relação aos premiados.

 

Quase todos os principais prémios foram entregues de acordo com a maioria das previsões. Com muita pena minha. 8 prémios em 10 para Slumdog Millionaire para, no dia seguinte, o mundo prestar atenção à Índia. Filme estrangeiro para o Japão e não para Walz with Bashir, porque é Israelita. E como a questão Palestiniana renasce, é importante não atirar achas para a fogueira. Kate Winslet, actriz cheia de tiques arrecada o prémio de melhor actriz principal sabe Deus como. Porque é que a academia tem problemas em atribuir realmente prémios à grande senhora Meryl Streep? E porque é que Danny Boyle é o melhor realizador se o senhor Van Sant é melhor que ele? Para chamar mais atenção para a Índia que para as causas dos homossexuais? Porque a Índia desvia a atenção das questões internas e o casamento gay é uma questão interna e controversa nos EUA? É verdade que Milk arrecadou os prémios de argumento e actor principal. Mas nem todos os prémios podiam ser injustos...

Estou contente por Wall-e ter vencido o filme de animação mas tenho pena que não tenha ganho no som, só pelo maravilhoso som de inicio do mac.

 

Enfim, com um bom espectáculo mas sem surpresas nos prémios, fico com dúvidas se este ano de Oscar me vai ficar na memória.



publicado por Undómiel às 14:26
link do post | comentar | ver comentários (2) | adicionar aos favoritos

Domingo, 15 de Fevereiro de 2009
Waltz with Bashir

Mas que filmaço! Decerto, um dos melhores dos últimos tempos. Em duas palavras: arrebatador e brutal. Brutal em vários sentidos. Por um lado, extraordinário e, por outro, é brutal no verdadeiro sentido da palavra, de brutalidade, de realidade. Waltz with Bashir lembrou-me de uma maneira extremamente desconfortável que existe uma realidade, noutra parte do mundo, que eu ignorava ou queria ignorar. A guerra.

Como diz a maria, "todos vivemos numa bolha" e agora percebi  quão pequena e cor-de-rosa é a minha. A guerra existe mesmo, não é só uma memória de pessoas como o meu pai que acabam por tornar as suas histórias em coisas leves e engraçadas. A guerra é uma coisa brutal, pessoas como cada um de nós, membros de famílias como as nossas morrem. E isso não é nada cor-de-rosa. E perceber isto é fazer silêncio quando o filme acaba e sentir-se pequeno, irrelevante e vazio. Foi assim que me senti quando as letras amarelas dos créditos começaram a percorrer o ecrã e é por isso que Waltz with Bashir é um grande filme.

 

Ainda não vi mais nenhum dos filmes candidatos ao Oscar de melhor filme estrangeiro, mas este é já merecedor do prémio.



publicado por Undómiel às 20:34
link do post | comentar | ver comentários (4) | adicionar aos favoritos