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Domingo, 28 de Outubro de 2012
Uma viagem no tempo

Ir ao Consulado Português em Copenhaga é fazer uma viagem no tempo. Não é uma viagem até ao início do período "Copenhaga," é uma viagem até aos anos 90, se ignorarmos a presença de computadores. Na verdade, até esses são típicos de um outro tempo, ainda que mais recente - o ínicio dos 2000.

A senhora que trabalha no Consulado tem um aspecto intemporal. Olhando para ela, uma pessoa não sabe se está perante uma personagem dos anos 50, 70, 90 ou outros. O único sinal de "modernidade" são as calças que usa. Não que as calças tenham um corte, cor ou tecidos especiais; o simples facto da senhora usar calças marca-a como uma personagem pós sec. XIX.
Na parede, aparte do cartaz que publicita o oceanário e faz referência à Expo 98 (e que os visitantes com afazeres rápidos podem até ignorar), existem cartazes turísticos que mostram imagens de Portugal (na verdade é só um), um cartaz intemporal do Museu do Azulejo, e uma fotografia de Cavaco Silva. A fotografia de Cavaco Silva faz-se acompanhar de uma frase e do nome do senhor. A frase, que deverá descrever a função do senhor, esté escrita em letras demasiado pequenas e finas para o visitante ler. Assim sendo, fica-se sem saber se aquele Cavaco Silva é o Cavaco Silva 1º Ministro bem sucedido, ou o Cavaco Silva Presidente da República esquecido e esquecível.

Para completar o cenário, a certa altura surge uma nova personagem. Um senhor vestido de preto, com uma camisola de gola alta e um blazer. Parece saído de um filme francês dos anos 70. Eu lembro-me de, nos anos 90, ver muita gente "cool" com esse tipo de indumentária na rua. Normalmente eram "comunistas," rótulo que o meu avô usava, nos anos 90, para descrever muitas coisas de que não gostava. 



publicado por Undómiel às 06:40
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Segunda-feira, 9 de Julho de 2012
O Roskilde de toda a gente

O Roskilde de toda a gente é um óptimo reflexo da hipocrisia Dinamarquesa. A Dinamarca, apesar de ter um maravilhoso sistema de segurança social e parecer um paraíso para pessoas como eu, que vêm de países menos desenvolvidos, também tem as suas incongruências. E uma boa parte delas é levada ao extremo em Roskilde.

À primeira vista, a ideia de que a Dinamarca é um paraíso parece espelhada na forma como o festival está organizado. Há chuveiros de água quente, papel higiénico e sabonete para todos os campistas, casas-de-banho ajeitadas e com autoclismo no recinto do festival, muita segurança, os concertos começam invariavelmente a horas, a quantidade de luzes em cada palco impressiona, e os preços de comida, bebida e demais bens à venda no recinto é semelhante ao preço das mesmas coisas em Copenhaga. Além disso, existem, no recinto do festival, áreas temáticas, que querem chamar a atenção para causas sociais e outras, na tentativa de fazer deste festival um evento com moral. Uma dessas áreas chama-se "zona da sustentabilidade." Aqui, os copos usados nos bares são reutilizáveis e o reenchimento do mesmo sai mais barato do que a compra de um novo, fala-se de poupança de energia e de como Roskilde é um festival "verde e sustentável."

 

Na Dinamarca, como numa série de outros países, garrafas de plástico e vidro e latas devolvem-se nas lojas em troca do dinheiro da tara. Uma das consequências deste tipo de sistema é a existência de "coleccionadores de latas." Estas são pessoas que andam pela cidade ou pela área de um certo evento, a coleccionar as latas e garrafas daqueles que não querem guardar o recipiente vazio para devolver na loja. Fazem desta maneira, segundo dizem, muito dinheiro, apesar de trabalharem muitas horas. É uma profissão que não é reconhecida e que ocupa muitos emigrantes ilegais na Dinamarca. Em Roskilde há uma legião. Compram o bilhete do festival, acampam, e coleccionam milahres e milhares de latas e garrafas durante o evento. Uma boa parte dos coleccionadores de latas em Roskilde são ciganos verdadeiramente nómadas que vêm à Dinamarca só mesmo para fazer dinheiro assim durante Roskilde. Depois voltam a por-se à estrada. Há quem diga que eles andam de festival em festival, na Europa Central e do Norte, a fazer dinheiro assim. Graças a estas pessoas, a reciclagem de boa parte desses desperdícios é assegurada. E poucos contribuem tanto para um Roskilde "verde" como eles contribuem.

 

O discurso do festival sustentável é mais um discurso do que uma realidade, pelo menos pelo que se consegue ver. Em toda a área do festival não à contentores para lixos de tipos diferentes e o grande caixote do lixo é o chão. Centenas de voluntários têm como função, precisamente, juntar o lixo em cada palco depois de cada concerto. Mas o que mais choca, e a maior incongruência deste festival, não é a falta de contentores de lixo ou a não preocupação real coma  reciclagem. A mior incongruência é a quantidade e tipo de desperdício. O que é de Roskilde fica em Roskilde. Isto significa deixar todo o tipo de coisas para trás, desde tendas e sacos-cama novos a comida e bebidas. Roskilde depois do festival é uma área onde parece ter acontecido o apocalipse. Tudo é lixo, tudo é deixado para trás. O desperdício é assustador. E nada é reciclado.

Depois de assistir a tal cenário, é dificil não achar hipócrita a preocupação com o ambiente tanto apregoada durante o festival.

lixeira roskilde


publicado por Undómiel às 21:38
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O MEU Roskilde

Ouço falar de Roskilde, o festival, desde que comecei a prestar atenção a coisas relacionadas com música e festivais. Antes ainda de começar a ir a festivais de Verão, ir a Roskilde já estava na minha "to-do list." A espera foi menos longa do que podia, na altura, imaginar. Este ano, fui a Roskilde pela primeira vez.

O meu entusiasmo por festivais de verão não é o mesmo de há uns anos atrás. Ainda assim, em Roskilde, voltei a sentir o entusiasmo e a excitação do primeiro festival. Vendo bem, este Roskilde foi o primeiro festival a que fui sozinha, o primeiro festival em que participei como voluntária, o primeiro festival em que não acampei, e o meu primeiro festival fora de Portugal. De várias formas, foi uma espécie de primeiro festival. Talvez por isso, mal o festival acabou, senti a necessidade de escolher a história que melhor descreve "o meu primeiro Roskilde":

Os M83 foram uma das minhas grandes motivações para fazer de Roskilde 2012 o meu primeiro. Cerca de 15 minutos antes da hora prevista para o início do concerto, comecei a procurar um espacinho no meio da multidão onde pudesse ver um dos ecrãs. Com sorte, encontrei um lugar onde podia ver um dos ecrás, tinha espaço para me mexer e até conseguia ver uma boa parte do palco. Com tanta visibilidade, não podia sair dali. Poucos minutos depois de me instalar, estudar a melhor posição para a minha grande mochila e dividir bem o peso do corpo pelas duas pernas, o rapaz que está à minha esquerda começa a soprar bolas de sabão para a minha cara. Eu acho bolas de sabão uma coisa fofinha, mas acho incomodativo estar a apanhar com bolas de sabão na cara repetida e propositadamente. Olho para o rapaz e faço um misto de cara de má e cara de pessoa que está divertida. O rapaz diz-me, num inglês estrangeiro de origem não-identificável, "estava a ver se conseguia por um sorriso na tua cara, e estou quase a conseguir." Perante expressão mais lamechas, sorrio.

O concerto começa. Os movimentos da multidão de escandinavos mais altos que eu obriga-me a ir mudando de lugar ao longo do concerto para conseguir ver. Afasto-me, por isso, pouco a pouco, do rapaz de origem desconhecida.

O concerto decorre. E corre bem. Nas músicas menos dançáveis começo a divagar sobre como será uma relação amorosa com um francês. Foi este o pensamento alternativo ao "será que o amigo anthony Gonzalez é gay?"

No fim do concerto, saio da área daquele palco. Tenho de fazer tempo até ao próximo concerto, que só vai acontecer daí a 1 hora. Mas estou sozinha, de maneira que caminho devagar e sem destino.

Sinto qualquer coisa a tocar-me nas costas, parece uma ponta de guarda-chuva. Quando me viro, vejo um mini guarda-chuva cor-de-rosa choque, um miúdo desconhecido e o rapaz das bolas de sabão. O miúdo desconhecido diz, "parece que andas por aqui sozinha. Se não tens de encontrar os teus amigos, podes juntar-te a nós."

Fazemos conversa de ocasião. O rapaz das bolas de sabão e os amigos são, precisamente, franceses.

Pouco depois de revelarem a sua nacionalidade, aceleram o passo. Têm de encontrar os seus amigos que estão mais à frente. Perco-os de vista. E não voltei a ver o rapaz das bolas de sabão. 



publicado por Undómiel às 21:00
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Terça-feira, 26 de Junho de 2012
As missas

Quando cheguei a Copenhaga fui à missa. Desde então, o meu currículo de missas não aumentou muito. Acho que as missas têm um maravilhoso valor cultural que poucas outras manifestações partilham. Talvez por isso, ou talvez por obra do acaso, ou talvez por obra do espírito santo, como diz a minha mãe, na minha mais recente visita turística à cidade onde as pessoas olham para um relógio com nome de pessoa para ver as horas, tenha ido parar a uma espécie de missa/cântico da tarde. Suponho que ir parar a um evento destes não seja muito dificil quando se é daqueles turistas que vai onde os guias indicam. O que creio que seja um pouco mais dificil é ficar na igreja onde o evento decorre até ao fim do mesmo. Foi isso que fiz.

 

Não sei se a minha catequista que dizia que eu tinha o espírito santo em mim tinha razão. Mas se tiver, o espírito santo que mora em mim está meio confuso. Fui baptizada na igreja católica, a oração e a missa mais recentes a que fui eram protestantes. E planeio que a próxima missa seja ortodoxa.



publicado por Undómiel às 22:40
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Quarta-feira, 25 de Maio de 2011
Um ano depois

As minhas férias começaram há alguns momentos. Imediatamente fui tomada por uma estranheza inesperada: já passou quase um ano desde que cheguei à Dinamarca e tenho, em princípio, o meu primeiro ano de mestrado pronto. É muito estranho. 

Não que nada tenha acontecido, pelo contrário. A verdade é que tudo parece ter acontecido muito depressa. Quase depressa demais. O momento das decisões aproxima-se demasiado depressa. E o meu medo do futuro também.

Ser criança é tão mais fácil que ser "crescido".



publicado por Undómiel às 10:49
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Quinta-feira, 7 de Abril de 2011
Cuidado com o cônsul

Há dois dias atrás fui ao consulado português em Copenhaga para pedir informações sobre o processo de voto à distância. Nesse dia, falei sobre o voto antecipado à senhora que me atendeu e ela disse que a única forma de votar nas próximas eleições era através do recenseamento aqui e que o último dia era o dia seguinte, ontem.

Ontem, voltei ao consulado português em Copenhaga, munida de todos os documentos exigidos para o recenseamento. Cheguei cheia de satisfação por estar a cumprir um dever cívico e a contribuir, modestamente, para o futuro do meu país. (este pensamento fluía na minha cabeça ao ritmo do fado) É também cheia de satisfação que toco à campaínha, abro a porta e me dirijo ao balcão onde me tinha apoiado no dia anterior. A senhora encarregue de atender o público era a mesma que me tinha informado no dia anterior. E lembrava-se de mim. Lembrava-se tão bem que mal eu disse "boa tarde", ela sabia ao que é que eu vinha e foi directa ao assunto: "ai, desculpe, mas o prazo afinal acabava ontem. Recebemos uma nova ordem de Lisboa...". Apeteceu-me berrar à senhora. Em vez disso, voltei a falar do voto antecipado que, no dia anterior, ela tinha descartado. Ela faz um telefonema: "está aqui uma senhora estudante em Copenhaga, que não é erasmus e leu sobre o voto antecipado". Depois de pousar o telefone diz-me "tem razão. Contacte-nos no fim de Abril e pode votar antecipadamente. Precisa, para isso, de trazer um comprovativo de que é estudante aqui e o seu número de eleitor".

 

Mas que raio de serviço foi este? A eficácia portuguesa surpreende-me diariamente.



publicado por Undómiel às 09:26
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Sexta-feira, 4 de Março de 2011
Oscar e eu, versão gourmet

Aviso: o título pouco ou nada tem a ver com o conteúdo que se segue.

 

É curioso que, agora que estou a 2819 Km de casa (cálculo google maps), consumo produtos portugueses de qualidade superior àquela dos produtos que consumo correntemente em Porugal. Isto porque, por qualquer razão, a minha mãe insiste em enviar-me coisas quase gourmet vindas do país de Camões.

 

Por isto, quando receber um prémio importante na minha vida e tiver direito a um tempo de discurso à la Oscares, uma coisa vou incluir, com certeza, nesse discurso: um grande agradecimento à minha mãe. Até aqui nada de novo, toda a gente o faz. No meu caso, no entanto, o agradecimento vai ser um pouco mais específico. Vou agradecer à minha mãe por, enquanto eu morava em Copenhaga, me enviar os melhores queijos de Portugal.



publicado por Undómiel às 14:15
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Sábado, 26 de Fevereiro de 2011
Recapitulando

Há uma eternidade que não escrevo aqui. Já vai sendo tempo de fazer um pequeno resumo dos últimos tempos e acrescentar um ponto da situação.

Não é que não tenha acontecido nada ultimamente, pelo contrário, acho que o impulso blogueiro é que é muito temperamental. Aproveitemos então agora que ele parece estar acordado...

 

Bom, parece que desde novembro/dezembro que não ponho novidades aqui. Soa a fora de prazo se fizer algum relato agora. Mas posso fazer um pequeno resumo.

 

Faz hoje, precisamente, 6 meses que cheguei a Copenhaga. Acho que me lembro dos meus dois primeiros dias na capital dinamarquesa com pormenor raro. Sendo a minha memória, provavelmente, uma das piores do mundo, tal acontecimento é, no mínimo, notável. Espero também que signifique que essas memórias não vão desaparecer tão cedo.

Nos últimos tempos houve tempo para tentar perceber Copenhaga e a Dinamarca, tentar perceber os Dinamarqueses, a língua dinamarquesa e a diversidade cultural, juntamente com a adaptação à meteorologia semi-escandinava. Quase todos estes "tentar" acabaram em fracasso. 

 

Copenhaga é uma cidade pequena mas, apesar disso, a percentagem que conheço é bem modesta. Se me perguntarem quais são os locais obrigatórios em Copenhaga, estou certa que a minha resposta estará, na melhor das hipóteses, muito incompleta.

Gosto de procurar desculpas para este tipo de coisas. Encontro-as sempre. Mas são sempre demasiado esfarrapadas e existem apenas para me convencer que não fui uma má "imigrante". Como, independentemente das desculpas esfarrapadas que encontre, a verdade é que fui uma "má imigrante", o melhor é não ir por aí.

 

Não sei se Copenhaga é um bom exemplo daquilo que é a Dinamarca. Ainda não saí de Copenhaga para comprovar. O meu entendimento do país onde estou está, portanto, limitado e. talvez, distorcido. No entanto, há uma série de factos que, julgo, identificam e descrevem a Dinamarca que julgo ter percebido e absorvido. Um deles tem a ver com os ódios de estimação/competição entre as diferentes ilhas. Outros exemplos passam pela gastronomia e a obsessão pelo bacon, a confiança cega entre as pessoas que conduz ao sentimento generalizado de segurança, as regras do sistema de segurança social, os impostos pagos à igreja, o trânsito das bicicletas, os animais de estimação, os respeito pelas regras e, acima de tudo, as portas automáticas.

 

Perceber os dinamarqueses é o passo que vem naturalmente depois de perceber o país, espero. Como ainda estou na primeira fase, posso apenas avaliar características óbvias em que reparei porque corresponderam totalmente às minhas expectativas. Falo de características físicas principalmente. Sim, os meninos e as meninas são maioritariamente louros, altos e de olhinho azul. No entanto, avaliando pela quantidade de casais de "raças" misturadas que já vi, daqui a algumas gerações tudo vai mudar. Daqui concluo também que há uma certa tendência generalizada para gostar de coisas tidas como "exóticas" (pessoas baixas e morenas incluem-se neste grupo).

 

Quando cheguei a Copenhaga, no fim de agosto, vinha cheia de vontade de aprender dinamarquês. Pouco depois, surgiu a oportunidade de frequentar, gratuitamente, um curso de dinamarquês para estrangeiros (mais uma das super vantagens do maravilhoso sistema de segurança social). Obviamente, não desperdicei essa oportunidade. Tive aulas de dinamarquês semanalmente entre setembro e dezembro. Em janeiro, quando chegou a altura de fazer exame oral e comprovar que tinha aprendido dinamarquês, rendi-me às evidências e desisti. O dinamarquês é uma língua demasiado vomitada. Sinto que, por muitas aulas que tenha e por muito que pratique a pronúncia, nunca vou conseguir fazer os sons super estranho de quem vai vomitar que eles usam.

 

O tempo é, juntamente com a língua, um daqueles factores que realmente custa a adaptar. Quando eu achava que já estava quase mestre da resistência ao frio e, consequentemente, mais próxima de ser uma "quase escandinava", eis que os meus pés voltam à terra, volta a nevar depois de uns dias de sol e eu desisto de me enganar. Nunca vou ser escandinava. Estou farta de neve e frio. Quero a Primavera. 

 

 

 

(Não é que normalmente escreva bem, mas noto que se nota que não escrevo há muito tempo. Peço desculpa.)



publicado por Undómiel às 10:47
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Sábado, 20 de Novembro de 2010
Mais coisas quase bizarras

Voltei a mudar de casa, em Copenhaga. Espero que desta vez seja uma mudança mais deifinitiva do que as anteriores. Não quero dar mais festas de inauguração de casas novas.

Desta vez, a minha casa é normal e maravilhosa. Estou numa residência mas numa casa só com rés-do-chão e tenho tudo só para mim - casa-de-banho, cozinha e quarto. E tenho vizinhos. Não tenho mobília, mas em breve começarei a ter. Sinto que mudei para o mais próximo da perfeição que pode existir em Copenhaga. Nada de colegas de casa estranhos, nada de cozinhas nojentas, nada de quartos sem porta e, o melhor de tudo é, tenho um chuveiro cujo chão não é o chão do resto da casa-de-banho.

 

No entanto, desde que mudei para aqui, parece que aquilo que me acontece tem de ser muito estranho para compensar a não presença de elementos estranhos na minha habitação.

Há umas semana atrás fui a Itália. Viajei sozinha, como é da minha marca. Num dia meio chuvoso, estava eu sentada num degrau de uma das 1500 igrejas de Veneza a preparar a minha sandes quando sou abordada por uma pessoa. Era um homem, de pele castanha, com ar de missionário. Fez-me várias perguntas, num inglês melhor que o comum "italiano-inglês". Eu, da forma mais seca que consegui, respondi às perguntas. O assunto de conversa parecia ser inexistente, até que o senhor me perguntou se queria ir a casa dele. Aí, vi-me obrigada a levantar-me e ir embora. Tive medo que ele viesse atrás de mim e comecei a acelerar o passo. Ele não veio atrás de mim, mas o momento foi suficientemente estranho para me assustar.

Dias depois, a minha carteira desaparece.

Volto para a Dinamarca.

 

Alguns dias depois do regresso, combino esperar por um colega numa das praças mais movimentadas de Copenhaga. Espero durante cerca de 15 minutos. Pelos vistos, há qualquer coisa em mim que atrai pessoas estranhas. Nos últimos 5 minutos tive de ouvir um senhor, que apareceu do nada, que me fez perguntas, e que me voltou a assustar. Como se não bastasse, momentos depois chegou um amigo desse senhor e os dois começaram a falar comigo de forma assustadora. Consegui fugir quando o meu colega chegou.

 

Dias depois, estava eu no metro, de regresso a casa, à noite, e algo semelhante acontece. Estavam duas pessoas em todo o metro, contando comigo. A outra pessoa era um senhor com um sutaque polaco que decidiu falar comigo. Desta vez, o encontro foi assustador desde o início. A primeira frase que o senhor pronunciou foi, em inglês, "sabias que tens uns lábios muito bonitos?". Estava nitidamente bêbedo. E eu não tinha para onde fugir. Não respondi. Ele continuou a falar comigo. Para responder, sempre que possível, limitava-se a acenar. Por dentro desejava que ele saísse do metro o mais rápido possível. Ele eventualmente saiu, mas na estação onde eu também devia sair. Eu estava tão assustada que fiquei no metro e saí na estação seguinte para não ter de conviver com o polaco assustador mais tempo.

 

E a série ainda não acabou.

 

Ontem, fui a um dos meus bares preferidos em Copenhaga. É um bar de pessoas mais velhas, com um ar crescido, que está sempre cheio e onde há uma selecção de cervejas bastante diversificada. Há lá sempre imensos homens e mulheres com mais de 40 ou 50 anos. Essa é, aliás, uma das características que mais me agrada no bar. No entanto, ontem, essa característica tornou-se um pouco assustadora.

Como sou pequena, é normal para mim pedir às pessoas que estão ao balcão para me arranjarem um espacinho para eu fazer os meus pedidos. Como toda a gente fala inglês, aqui faço o mesmo. Nesse bar, normalmente, isso significa pedir a cinquentões charmosos e de barba branca para me deixarem chegar ao bar. Às vezes, eles metem conversa e ouço algumas das suas fascinantes histórias. Às vezes, essas histórias até têm como cenário Portugal.

Ontem, no entanto, já tardinho, a conversa não tinha como recheio histórias pessoais. Um dos senhores que, a certa altura, se desviou para eu chegar ao balcão, tinha uma barba grande, nariz grande e olhos pequenos. Pensei num Gandalf em formação quando o vi. É um cliente habitual, já o tinha visto ali antes. Quando se desviou fez-me algumas perguntas como "de onde és" e coisas normais desse género. Respondi. Um colega meu aproxima-se e diz-me qualquer coisa para eu acrecentar ao pedido. O senhor da barba pergunta-me "é o teu namorado?". Eu respondo que não. É então que a conversa se transforma no momento mais estranho de sempre. Ele diz "ah, é que eu queria dar-te um beijo". Virei a cara e ignorei o senhor. Mal tive oportunidade, fui para casa. Nunca pedalei tão rápido como ontem.



publicado por Undómiel às 14:21
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Terça-feira, 12 de Outubro de 2010
Nova habitação

Hoje cheguei à universidade as 8h41min - 11 min atrasada para a aula das 8h30. O que significa que, como estou mais de 10min atrasada, tenho de esperar até ao intervalo para entrar. Tenho, por isso, uns minutos de ócio que vou aproveitar para descrever a minha nova situação habitacional em Copenhaga.

 

Vivo, agora, a 5 minutos da universidade, num apartamento meio aborrecido com 3 outras pessoas, uma casa de banho minúscula e uma cozinha que merecia ser maior, apesar de ter a mais valia de ter móveis amarelos. O meu quarto é, como já tinha dito, enorme e cheio de luz natural. O especial da nova casa são a casa de banho - que não é assim tão especial para padrões dinamarqueses - e os meus colegas de casa.

 

O apartamento tem 3 quartos, sem sala (era o que agora é o meu quarto) e vivem lá 4 pessoas, 2 delas no mesmo quarto. Os 2 que vivem no mesmo quarto não são um casal, são 2 irmãos polacos, amigos da dona do apartamento que formam um par de personagens que eu classificaria como "sinistras". A história deles é o interessante e assustador acerca da nova casa.

Eles mudaram-se os 2 há pouco tempo para Copenhaga e vivem ali graças à gentileza da dona do apartamento, também polaca e amiga deles. Em troca, creio que tratam do cão da rapariga. O cão, que completa o cenário, é pequeno, meio salsichudo, e chama-se "coc chic" - um nome cómico quando dito no meio de uma conversa em inglês. O terceiro rapaz lá de casa chama o bicho apenas de "coc"...

Os polacos trabalham em horários estranhos - começam às 01h e terminam cedo pela manhã mas durante o dia andam pela casa meios zombies. Um deles é cabeleireiro e, de vez em quando, recebe pessoas em casa para lhes cortar o cabelo. Quando isso acontece, o espectáculo acontece no meio da pequena e amarela cozinha. O segundo polaco tem quase 40 anos e 2 filhos e uma ex-mulher que deixou na Polónia. É uma personagem muito sinistra. As conversas que tem comigo são normalmente forçadas mas, apesar disso, decidiu que eu me parecia com uma rapariga polaca desesperada por casar e começou a atirar-se a mim. Diz, frequentemente, coisas como "estás livre no próximo fim-de-semana? Posso levar-te a algum lado?". Isto deve ser a coisa mais assustadora que já me aconteceu. Felizmente, ele fica-se pela conversa, ainda assim, ele conseguiu transformar a minha vivência no apartamento pequeno com um quarto gigante numa das experiências mais desconfortáveis de sempre.

 

Acontecem-me coisas mesmo estranhas, às vezes...



publicado por Undómiel às 08:00
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