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Domingo, 28 de Outubro de 2012
Uma viagem no tempo

Ir ao Consulado Português em Copenhaga é fazer uma viagem no tempo. Não é uma viagem até ao início do período "Copenhaga," é uma viagem até aos anos 90, se ignorarmos a presença de computadores. Na verdade, até esses são típicos de um outro tempo, ainda que mais recente - o ínicio dos 2000.

A senhora que trabalha no Consulado tem um aspecto intemporal. Olhando para ela, uma pessoa não sabe se está perante uma personagem dos anos 50, 70, 90 ou outros. O único sinal de "modernidade" são as calças que usa. Não que as calças tenham um corte, cor ou tecidos especiais; o simples facto da senhora usar calças marca-a como uma personagem pós sec. XIX.
Na parede, aparte do cartaz que publicita o oceanário e faz referência à Expo 98 (e que os visitantes com afazeres rápidos podem até ignorar), existem cartazes turísticos que mostram imagens de Portugal (na verdade é só um), um cartaz intemporal do Museu do Azulejo, e uma fotografia de Cavaco Silva. A fotografia de Cavaco Silva faz-se acompanhar de uma frase e do nome do senhor. A frase, que deverá descrever a função do senhor, esté escrita em letras demasiado pequenas e finas para o visitante ler. Assim sendo, fica-se sem saber se aquele Cavaco Silva é o Cavaco Silva 1º Ministro bem sucedido, ou o Cavaco Silva Presidente da República esquecido e esquecível.

Para completar o cenário, a certa altura surge uma nova personagem. Um senhor vestido de preto, com uma camisola de gola alta e um blazer. Parece saído de um filme francês dos anos 70. Eu lembro-me de, nos anos 90, ver muita gente "cool" com esse tipo de indumentária na rua. Normalmente eram "comunistas," rótulo que o meu avô usava, nos anos 90, para descrever muitas coisas de que não gostava. 



publicado por Undómiel às 06:40
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Quinta-feira, 7 de Abril de 2011
Cuidado com o cônsul

Há dois dias atrás fui ao consulado português em Copenhaga para pedir informações sobre o processo de voto à distância. Nesse dia, falei sobre o voto antecipado à senhora que me atendeu e ela disse que a única forma de votar nas próximas eleições era através do recenseamento aqui e que o último dia era o dia seguinte, ontem.

Ontem, voltei ao consulado português em Copenhaga, munida de todos os documentos exigidos para o recenseamento. Cheguei cheia de satisfação por estar a cumprir um dever cívico e a contribuir, modestamente, para o futuro do meu país. (este pensamento fluía na minha cabeça ao ritmo do fado) É também cheia de satisfação que toco à campaínha, abro a porta e me dirijo ao balcão onde me tinha apoiado no dia anterior. A senhora encarregue de atender o público era a mesma que me tinha informado no dia anterior. E lembrava-se de mim. Lembrava-se tão bem que mal eu disse "boa tarde", ela sabia ao que é que eu vinha e foi directa ao assunto: "ai, desculpe, mas o prazo afinal acabava ontem. Recebemos uma nova ordem de Lisboa...". Apeteceu-me berrar à senhora. Em vez disso, voltei a falar do voto antecipado que, no dia anterior, ela tinha descartado. Ela faz um telefonema: "está aqui uma senhora estudante em Copenhaga, que não é erasmus e leu sobre o voto antecipado". Depois de pousar o telefone diz-me "tem razão. Contacte-nos no fim de Abril e pode votar antecipadamente. Precisa, para isso, de trazer um comprovativo de que é estudante aqui e o seu número de eleitor".

 

Mas que raio de serviço foi este? A eficácia portuguesa surpreende-me diariamente.



publicado por Undómiel às 09:26
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Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009
O Consulado

Nunca tinha estado num consolado, até hoje. Até tinha alguma curiosidade. O que encontrei foi uma coisa bem diferente do que estava à espera, algo quase kafkiano, diria.

O prédio onde está instalado o consulado fica entre um restaurante chinês, um museu taurino, uma loja de desporto e uma loja de roupa interior feminina. É um prédio de habitação. Cada campaínha indica o andar e a letra que corresponde a cada apartamento, excepto a do consulado. A campainha do consulado tem, por cima do mostrador do andar e letra, de maneira a que estes não sejam visíveis, um pequeno papel escrito à mão e já ligeiramente borratado pela chuva. O papel diz "consulado". A campaínha, na verdade, nem é necessária porque a porta está aberta.

O hall de entrada é amplo e lembra, por qualquer razão, os anos 70. Existe um cubículo que diz "porteiro", bem iluminado, mas não existe porteiro. Junto à janelinha desse cubículo, numa placa dourada pode ler-se, finalmente, "Consulado de Portugal" 3º qualquer-letra (já não me lembro qual era, exactamente). De ambos os lados desse cubículo, e de forma quase perfeitamente simétrica, existem escadas e um elevador. O elevador tem em todo o lado menos no indicador de andar actual um ar 'normal/velho'. No mostrador do andar parece super moderno.

O terceiro andar tem um pequeno corredor cujo centro está marcado pelo elevador. Há 2 ou 3 portas. A do lado direito, fechada, tem uma placa prateada, dum tamanho pouco mais pequeno que o A4 do papel, com a esfera armilar rodeada por louros e a inscrição "Consulador de Portugal" e o horário de funcionamento. O horário foi corrigido duma forma muito rudimentar. Era preciso tocar à campaínha. O som da campaínha era o som normal de uma campaínha de uma casa. A porta não abriu de imediato. Começaram a ouvir-se passos atrás da porta. Imaginei alguém ainda meio despenteado, de chinelos e robe a abrir a porta. Na verdade, atendeu-me um senhor daqueles que põe os óculos na ponta do nariz para olhar por cima deles, barriguinha "à portuguesa", cerca de 60 anos e indumentária própria de senhor de 60 anos friorento. Esqueci-me de reparar se estava ou não de chinelos. Entrei e conversei com o senhor. Nunca saímos no hall de entrada. A alcatifa, verde-cinzento com ar velho combinava com o ar do senhor. E os panfletos espalhados em cima do móvel do hall também. Eram alusivos a vários museus e atracções turísticas de Portugal e pareciam velhotes. O senhor tinha uma voz mais ou menos grave e um pouco rouca. Era português e aquela parecia ser a sua casa. Foi estranho. 



publicado por Undómiel às 14:41
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