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Domingo, 5 de Setembro de 2010
'A' bicicleta

Nunca pensei que uma bicicleta baratucho pudesse ganhar tanto significado na vida de uma pessoa.

 

Algures durante a semana que acabou ontem decidi que ia perder o amor ao dinheiro e tratar de, finalmente, comprar uma bicicleta. Nova ou em segunda mão, não me interessava. O importante era ser barata (menos de 268€, portanto). Perguntei a várias pessoas onde é que poderia encontrar bicicletas baratas. A resposta que ouvi mais vezes mencionava um grande supermercado. Foi lá que procurei primeiro, portanto.

 

Havia bicicletas muito variadas. Todas por volta dos 260/300€, algumas mais caras, e uma por 160€. Estranhamente, a bicicleta dos 160€ (a coisa mais barata que vi até agora em Copenhaga), era brilhante, engraçada, de senhora e incluía cestinho. Parecia ter sido especialmente talhada para mim e ter estado ali desde sempre à espera que alguém com o meu perfil a comprasse.

O sistema naquele supermercado era tirar um papelinho com os códigos da bicicleta, pagar na caixa, e ir ate ao armazém buscar a bicicleta. Depois de pagar, então, lá fui. Toquei à campainha para chamar o funcionário. O senhor apareceu pouco depois. Depois de lhe dar o papelinho identificativo da bicicleta, ele desapareceu por momentos. Quando reapareceu, trazia uma grande caixa. Não estava propriamente à espera daquilo. O senhor abriu a caixa. Lá dentro estava meia bicicleta e peças. Fiquei um pouco nervosa. Depois, o senhor voltou a desaparecer. Voltou pouco depois com uma caixa de ferramentas e disse "aqui tens ferramentas, caso precises". Entrei em pânico. Tinha mesmo que arranjar maneira de montar a bicicleta. Eu gosto de legos, mas nunca antes me tinha passado pela cabeça que um dia teria de montar uma bicicleta, muito menos uma bicicleta a sério.

Como é óbvio, pedi ajuda ao senhor. Ele respondeu "não posso ajudar". Neste momento amaldiçoei o senhor, os dinamarqueses e a Dinamarca. Depois percebi que era tudo uma questão de cumprir regras. E se há coisa que normalmente se faz na Dinamarca, é cumprir regras.

Não tive grande escolha senão pôr mãos à obra. Demorei uma eternidade, mas lá consegui pôr as coisas mais ou menos no sítio. As coisas excepto o guiador. Eu não sou propriamente expert em bicicletas, menos em bicicletas aos pedaços e, por isso, não consegui bem perceber o que tinha de fazer para instalar o guiador. O senhor não me podia ajudar e não apareceu ninguém no armazém a quem pudesse pedir ajuda. Tive de pegar na bicicleta mutilada e arranjar maneira de chegar até uma oficina de bicicletas ou, pelo menos, até casa, onde, com certeza, um dos meninos seria capaz de me ajudar.

Parti, então, com uma bicicleta mutilada, um cesto de bicicleta e uma mala pesada com um computador lá dentro.

Ali perto havia uma estação de comboio que me podia levar até ao centro da cidade. Fui até lá. Chegou um comboio que poderia apanhar pouco depois de eu chegar. A senhora revisora, coitadinha, primeiro pensou ajudar-me a por tudo no comboio e depois, pensando melhor, aconselhou-me a tentar o comboio seguinte. A verdade é que, com tanta coisa que trazia, não conseguia pegar na bicicleta para a fazer subir degraus.

No comboio seguinte não tive problemas, a entrada era ao nível da plataforma. Pensei "será que a minha sorte está a mudar?". Não estava. A estação onde saí não era muito grande e a saída mais fácil era pelas escadas. Tinha, realmente, uma calha para levar a bicicleta mas, mesmo assim, com a minha carga ia ser um desafio. Peguei num dos cordões que tinha a atar o guiador ao ferro da bicicleta e atei o cesto também. Tentei subir as escadas com a bicicleta mutilada e a mala super pesada. Demorei, mas consegui. Só queria chegar a casa e não ter de pensar mais no raio da bicicleta.

Depois da estação, caminhei mais 30min até casa. Foram 30 min intermináveis. Uma bicicleta sem guiador não é muito fácil de conduzir. Uma vez em casa, devia arranjar maneira de pôr a bicicleta nas traseiras, onde há mesmo um pequeno espaço protegido da chuva onde guardar bicicletas. Não tinha chave mas, finalmente, a minha sorte começou a mudar. Quando cheguei a casa, estava uma rapariga a abrir a porta de acesso a essa zona. Tive apenas de a seguir.

 

Já estava mais descansada, mas ainda me faltava acabar de montar a bicicleta. Felizmente, algum tempo depois de eu chegar a casa, chegou também um dos meus colegas de casa. E com a ajuda dele consegui, finalmente acabar de montar a bicicleta.

 

Foi uma maratona, conseguir esta bicicleta. E tudo porque quis a mais barata. Desde então, o meu amor ao dinheiro transformou-se e é, hoje, mais ponderado.

Quanto à bicicleta, tenho a dizer que é bastante simpática, apesar de ainda me estar a habituar. Estou a aprender a andar de bicicleta outra vez. O importante é que a bicicleta cumpre a sua função na perfeição.



publicado por Undómiel às 10:32
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Sexta-feira, 22 de Maio de 2009
Bike Trip

 Definitivamente sou adepta de "Bike Trips". Devia fazer mais.

Tudo começou há quase um ano, assim. Em Fevereiro/Março passados fui à holanda. E como sempre me disseram "na Holanda, sê Holandês", um dos dias foi precisamente dedicado à exploração de parte do país em cima da bicicleta, assim. Ontem, pela primeira vez na Alemanha, dei um uso mais intensivo à minha bela Arabella, rosa, roxa e ferrugem. E que belo que foi!

 

Pela Alemanha, como na Holanda, existem vários percursos demarcados para bicicletas. Percursos longos e com características específicas. O que percorri ontem, juntamente com alguns dos meus colegas erasmus, foi um dos percursos ao longo do rio Ilm, o que banha Weimar. O percurso chama-se, traduzindo "vale do Ilm".

ver mapa

 

Não é exactamente o que está assinalado no mapa, mas próximo, as localidades que atravessámos são essas. E a distância não será muito além dos 20 Km.

O programa era percorrer o Ilmtal entre Weimar e Kranichfeld e voltar de comboio.

O percurso é muito bonito. Atravessa aldeias, campos e floresta e leva-nos ao verdadeiro coração da Alemanha. Ontem, um coração em festa, o que tornou a viagem ainda mais divertida.

Cruzámo-nos com muitos grupos de pessoas a festejar o dia do Homem e parámos em duas festas. Numa delas estivemos uma hora. Festa muito peculiar, essa. Além da normal cerveja e dos homens havia também música e um estranho one-man-show. O anfitrião e protagonista do espectáculo era um senhor que podia muito bem ser português: baixinho, barba grisalha e bêbedo. A certa altura agarra uma guitarra, simulou que tocava e começou a cantar por cima de uma música alemão aparentemente muito popular. Depois, veste uma saia, põe uma peruca aos caracóis, semelhante à que os palhaços falsos do carnaval usam mas em louro, e canta por cima de uma qualquer música cantada por uma mulher, com voz aguda. Estranho e hilariante, mas rápido. Quando o senhor acabou o seu espectáculo seguimos o nosso caminho através de campos e florestas, novamente, sob ameaça de chuva, até Kranichfeld. Uma vez em Kranichfeld, a primeira preocupação foi encontrar um "Biergarten" (tasco com jardim interior=esplanada onde se pode beber cerveja e, eventualmente, comer). Fomos parar a um sítio, mais uma vez, muito peculiar. Quase hino ao Kitsch, diria eu. Guardanapos laranja com bolinhas, cortinas de renda na porta, renda e flores nas cortinas das janelas, cadeiras de bambu com almofadinhas a condizer com as cortinas na sala de jantar interior e toalhas de mesa com igual padrão. A senhora que servia à mesa e que julgo que era também a dona do sítio, envergava um vestido de padrão igualmente floral com uma fita rosa, num estilo alemao-antigo. Cenário fascinante mas má cerveja, que nos mandou de volta para Weimar.

Foi uma bela Bike Trip. E quero fazer mais coisas destas!



publicado por Undómiel às 16:06
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