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Domingo, 17 de Outubro de 2010
Kulturnatten, kultur og ideologi

A noite de sexta-feira passada foi, em Copenhaga, a "Kulturnatten". Kulturnatten é, como se adivinha pelo nome, a "noite da cultura". Durante essa noite, que começa às 16h e termina às 01h, os "espaços habituais da cultura" estão abertos e acolhem iniciativas especiais e outros espaços não tão habituais abrem portas excepcionalmente para acolher, também eles, eventos culturais. Os Ministérios de áreas diferentes abriram com projecções, concertos, exposições, a prisão da cidade também esteve aberta ao público, que fez fila à entrada. A cultura saiu à noite e as pessoas também.

As ruas estavam cheias de famílias com o pin que servia de bilhete para a Kulturnatten.

 

Como havia demasiados espaços abertos, eu decidi esquecer o mapa e entrar em sítios aleatórios. Quando já não faltava muito para as 00h, hora em que o número de locais aberto diminuía drasticamente, entrei num monumento grande de inspiração neoclássica. Não olhei muito para tentar perceber o que era, simplesmente entrei, seguindo algumas pessoas. Lá dentro havia música e um senhor a vigiar as entradas. Entrei. Era uma igreja enorme e meia estranha, para os meus padrões ibérico-católicos. Havia muita gente sentada. Entrei mesmo durante a missa. Pensei "uma missa protestante! Vou ficar um pouco e depois saio discretamente.". Sentei-me num extremo de um dos últimos bancos. Apercebo-me que o padre está ao fundo da igreja de costas para os presentes e de frente para a escultura de Jesus Cristos em pose "abençoadora". O coro cantava junto ao orgão de tubos gigante do andar de cima, mesmo sobre a entrada. Ao centro, do lado esquerdo, destacado da parede e um nível acima da nave central da ingreja, havia um pulpito, muito parecido com aqueles que a maioria das igrejas portuguesas têm e raramente são usados.

 

Depois do padre fazer uma leitura, em dinamarquês perfeito e, por isso, completamente incompreensível para mim, chegou um casal de velhotes ao meu banco. Tive de me desviar para eles se sentarem. No extremo oposto do banco estavam sentadas duas pessoas e a distância entre bancos não era suficiente para uma pessoa passar confortavelmente em frente a outra. Resultado: fiquei presa no centro do banco que tinha escolhido até ao fim da missa.

A minha "noite da cultura" transformou-se, depois de entrar num ministério que não consegui identificar, numa instituição pública que também não consegui identificar e em duas galerias de arte, numa "noite religiosa".

 

A missa foi uma missa normal, creio. O discurso do padre, mais uma vez em perfeito dinamarquês, referiu, várias vezes, as palavras "kulturnatten", "kultur" e "ideologi" e foi tudo o que percebi. O senhor disse duas piadas durante o discurso que suscitaram gargalhadas na audiência mas não consegui perceber o conteúdo. Ele falou a partir do tal púlpito e usava sobre as vestes negras típicas dos padres, uma daquelas golas adoráveis à la camões. Sem perceber o que o senhor dizia, a indumentária tirava toda a credibilidade ao padre mas tornou a missa num evento fascinante.



publicado por Undómiel às 11:51
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