pesquisar   

Segunda-feira, 9 de Julho de 2012
O Roskilde de toda a gente

O Roskilde de toda a gente é um óptimo reflexo da hipocrisia Dinamarquesa. A Dinamarca, apesar de ter um maravilhoso sistema de segurança social e parecer um paraíso para pessoas como eu, que vêm de países menos desenvolvidos, também tem as suas incongruências. E uma boa parte delas é levada ao extremo em Roskilde.

À primeira vista, a ideia de que a Dinamarca é um paraíso parece espelhada na forma como o festival está organizado. Há chuveiros de água quente, papel higiénico e sabonete para todos os campistas, casas-de-banho ajeitadas e com autoclismo no recinto do festival, muita segurança, os concertos começam invariavelmente a horas, a quantidade de luzes em cada palco impressiona, e os preços de comida, bebida e demais bens à venda no recinto é semelhante ao preço das mesmas coisas em Copenhaga. Além disso, existem, no recinto do festival, áreas temáticas, que querem chamar a atenção para causas sociais e outras, na tentativa de fazer deste festival um evento com moral. Uma dessas áreas chama-se "zona da sustentabilidade." Aqui, os copos usados nos bares são reutilizáveis e o reenchimento do mesmo sai mais barato do que a compra de um novo, fala-se de poupança de energia e de como Roskilde é um festival "verde e sustentável."

 

Na Dinamarca, como numa série de outros países, garrafas de plástico e vidro e latas devolvem-se nas lojas em troca do dinheiro da tara. Uma das consequências deste tipo de sistema é a existência de "coleccionadores de latas." Estas são pessoas que andam pela cidade ou pela área de um certo evento, a coleccionar as latas e garrafas daqueles que não querem guardar o recipiente vazio para devolver na loja. Fazem desta maneira, segundo dizem, muito dinheiro, apesar de trabalharem muitas horas. É uma profissão que não é reconhecida e que ocupa muitos emigrantes ilegais na Dinamarca. Em Roskilde há uma legião. Compram o bilhete do festival, acampam, e coleccionam milahres e milhares de latas e garrafas durante o evento. Uma boa parte dos coleccionadores de latas em Roskilde são ciganos verdadeiramente nómadas que vêm à Dinamarca só mesmo para fazer dinheiro assim durante Roskilde. Depois voltam a por-se à estrada. Há quem diga que eles andam de festival em festival, na Europa Central e do Norte, a fazer dinheiro assim. Graças a estas pessoas, a reciclagem de boa parte desses desperdícios é assegurada. E poucos contribuem tanto para um Roskilde "verde" como eles contribuem.

 

O discurso do festival sustentável é mais um discurso do que uma realidade, pelo menos pelo que se consegue ver. Em toda a área do festival não à contentores para lixos de tipos diferentes e o grande caixote do lixo é o chão. Centenas de voluntários têm como função, precisamente, juntar o lixo em cada palco depois de cada concerto. Mas o que mais choca, e a maior incongruência deste festival, não é a falta de contentores de lixo ou a não preocupação real coma  reciclagem. A mior incongruência é a quantidade e tipo de desperdício. O que é de Roskilde fica em Roskilde. Isto significa deixar todo o tipo de coisas para trás, desde tendas e sacos-cama novos a comida e bebidas. Roskilde depois do festival é uma área onde parece ter acontecido o apocalipse. Tudo é lixo, tudo é deixado para trás. O desperdício é assustador. E nada é reciclado.

Depois de assistir a tal cenário, é dificil não achar hipócrita a preocupação com o ambiente tanto apregoada durante o festival.

lixeira roskilde


publicado por Undómiel às 21:38
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

O MEU Roskilde

Ouço falar de Roskilde, o festival, desde que comecei a prestar atenção a coisas relacionadas com música e festivais. Antes ainda de começar a ir a festivais de Verão, ir a Roskilde já estava na minha "to-do list." A espera foi menos longa do que podia, na altura, imaginar. Este ano, fui a Roskilde pela primeira vez.

O meu entusiasmo por festivais de verão não é o mesmo de há uns anos atrás. Ainda assim, em Roskilde, voltei a sentir o entusiasmo e a excitação do primeiro festival. Vendo bem, este Roskilde foi o primeiro festival a que fui sozinha, o primeiro festival em que participei como voluntária, o primeiro festival em que não acampei, e o meu primeiro festival fora de Portugal. De várias formas, foi uma espécie de primeiro festival. Talvez por isso, mal o festival acabou, senti a necessidade de escolher a história que melhor descreve "o meu primeiro Roskilde":

Os M83 foram uma das minhas grandes motivações para fazer de Roskilde 2012 o meu primeiro. Cerca de 15 minutos antes da hora prevista para o início do concerto, comecei a procurar um espacinho no meio da multidão onde pudesse ver um dos ecrãs. Com sorte, encontrei um lugar onde podia ver um dos ecrás, tinha espaço para me mexer e até conseguia ver uma boa parte do palco. Com tanta visibilidade, não podia sair dali. Poucos minutos depois de me instalar, estudar a melhor posição para a minha grande mochila e dividir bem o peso do corpo pelas duas pernas, o rapaz que está à minha esquerda começa a soprar bolas de sabão para a minha cara. Eu acho bolas de sabão uma coisa fofinha, mas acho incomodativo estar a apanhar com bolas de sabão na cara repetida e propositadamente. Olho para o rapaz e faço um misto de cara de má e cara de pessoa que está divertida. O rapaz diz-me, num inglês estrangeiro de origem não-identificável, "estava a ver se conseguia por um sorriso na tua cara, e estou quase a conseguir." Perante expressão mais lamechas, sorrio.

O concerto começa. Os movimentos da multidão de escandinavos mais altos que eu obriga-me a ir mudando de lugar ao longo do concerto para conseguir ver. Afasto-me, por isso, pouco a pouco, do rapaz de origem desconhecida.

O concerto decorre. E corre bem. Nas músicas menos dançáveis começo a divagar sobre como será uma relação amorosa com um francês. Foi este o pensamento alternativo ao "será que o amigo anthony Gonzalez é gay?"

No fim do concerto, saio da área daquele palco. Tenho de fazer tempo até ao próximo concerto, que só vai acontecer daí a 1 hora. Mas estou sozinha, de maneira que caminho devagar e sem destino.

Sinto qualquer coisa a tocar-me nas costas, parece uma ponta de guarda-chuva. Quando me viro, vejo um mini guarda-chuva cor-de-rosa choque, um miúdo desconhecido e o rapaz das bolas de sabão. O miúdo desconhecido diz, "parece que andas por aqui sozinha. Se não tens de encontrar os teus amigos, podes juntar-te a nós."

Fazemos conversa de ocasião. O rapaz das bolas de sabão e os amigos são, precisamente, franceses.

Pouco depois de revelarem a sua nacionalidade, aceleram o passo. Têm de encontrar os seus amigos que estão mais à frente. Perco-os de vista. E não voltei a ver o rapaz das bolas de sabão. 



publicado por Undómiel às 21:00
link do post | comentar | ver comentários (2) | adicionar aos favoritos