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Hoje apetece-me ter um blog.

Hoje apetece-me ter um blog.

10 Abr, 2009

Praga,

O sítio mais bonito do mundo, ou da pequena parte dele que conheço. Tem a beleza da baixa lisboeta extendida à cidade inteira. 

Em tempos a República Checa, ensinou-me o walter, foi a 5ª potência mundial.

 

Praga é, basicamente, uma cidade perfeita. Por várias vezes me perdi, mas sempre em sítios bonitos e cheios de coisas para ver. Qualquer esquina tem alguma coisa que se lhe diga. É maravilhoso.

Nas ruas ouve-se muitas vezes português e as pessoas, de um modo geral, falam inglês. É uma cidade maioritariamente turística, mas no caso de Praga, isso não é mau. Mau é quando personalidades como Barack Obama decidem visitar a capital do actual país na presidência da União Europeia e, por isso, monumentos como a sinagoga mais antiga da Europa estão fechados ao público. O que é compensado quando, numa noite com amigos, na praça antiga da cidade, numa barraquinha de cachorros se vê o senhor Berlusconi, o chefão da Itália. Praga também é melhor quando se encontram lá amigos que não vemos há muito. E quando nos apercebemos que coincidências acontecem. E também é engraçado quando se vêem muitos casaisinhos fofinhos por toda a cidade. Quem disse que Paris era a cidade do amor mentiu. Praga é a verdadeira cidade do amor, amor por outras pessoas e amor pela cidade.

Estive em Budapeste durante 4 dias e 4 noites. Não vi a cidade toda mas vi o que precisava ou talvez até mais do que precisava. Não sei se me apetece voltar. Não que a cidade seja feia, que não é; não que o país não tenha história, porque tem; não que o país não tenha uma cultura forte, porque tem; mas também tem prédios a cair, muitos e muitos pedintes. Não que isto não exista noutros sítios, mas em Budapeste os prédios a precisar de restauro são muitos e os pedintes são mais que o por mim tolerável. Outro factor que terá pesado neste meu sentimento não muito entusiasmado poderá ser o facto de ter estado em Praga imediatamente depois. Praga abafa qualquer outro sítio. Salvo seja.

 

Um dos problemas de Budapeste, quanto a mim, é o atraso geral da hungria, cerca de uma geração, pelo que eu me apercebi, em relação a Portugal. Só agora é que as pessoas começam a passar da agricultura para os serviços. Só agora é que as cidades começam efectivamente a crescer. A entrada na UE é recente e a preocupação com o turismo também. Talvez por isso a cidade não tenha um aspecto tão limpinho quanto eu esperaria.

 

Mas Budapeste não é só prédios a cair e a Hungria não é um país onde as pessoas andam todas só de carroça. Na verdade, tem umas quantas semelhanças com Portugal. A língua, dizem, figura entre as mais dificeis do mundo. O português também. O alfabeto húngaro tem mais uns quantos caractéres e os húngaros orgulham-se muito disso. Tal como os portugueses, creio, se orgulham da sua língua. O vinho húngaro é famoso e um importante produto nacional. Bem diferente do português, mas o facto do vinho ser produto nacional é outra característica que temos em comum. Até a população é em número semelhante aos 10 milhões de portugueses.

 

Ontem fui pela primeira vez ao cinema na Alemanha. Fui sozinha e estive sozinha. Assim se vê quão pequena é a cidade de Weimar. Fui às 17h15 (sim, eu sei que também não é a melhor hora, mas mesmo assim...) a um cinema muito peculiar, não muito longe da minha residência, ver, dobrado em alemão, The Reader, o filme que deu o Oscar a Kate Winslet.

 

Para começar, o facto do cinema ser "peculiar" já deixava adivinhar uma sessão de cinema, também ela, "peculiar". Depois, quando percebi que ia assistir sozinha, a sessão passou de "peculiar" a "quase surreal". 

O cinema onde fui é este. Instalado numa antiga fábrica, é qualquer coisa entre o cinema oita em Aveiro e a Lx Factory. Basicamente, é um sítio que eu descreveria como "buéda indie".

Cheguei ao edifício mesmo em cima das 17h15. Pensava que o filme estaria a começar, afinal os alemães são muito pontuais. Não. Depois de entrar na fábrica, passando por umas grandes cortinas pretas misto de cortinas de teatro e cortinas de entrada de igreja, deparo-me com um pequeno hall com um bar do lado direito, cartazes dos filmes em exibição do lado esquerdo e mais nada. Nem uma viv'alma. Digo "Hallo". De repente surge, numa varanda que me tinha passado despercebida, por cima do balcão do bar, um homem. Ele diz qualquer coisa em alemão, que eu não percebo, e desaparece. Espero alguns segundos e procuro uma maneira de chegar ao novo patamar de onde o senhor tinha aparecido. Encontrei. Depois do balcão há umas escadas. Subo. Encontro o senhor. Ele fala um pouco de inglês. Estava ali sozinho, a enrolar negativos. É ele que faz tudo ali. Trata da projecção, dos bilhetes e de tudo o resto. Disse que gostava de ver o filme. Ele disse "sabes que é em alemão, não sabes?". Eu sabia. Vendeu-me o bilhete e explicou-me onde era a sala. Entrei noutra porta econdida do hall onde a história começou, perto das cortinas, passei por um corredor iluminado por luzes cor de laranja, à moda do Pedro Cabrita Reis e entrei na sala de cinema propriamente dita. A sala não era muito grande e os bancos azuis eram confortáveis. Estava absolutamente vazia. A sessão ia mesmo ser só para mim. Sentei-me mesmo por baixo da janelinha onde nascia a projecção. A sessão e Der Vorleser foram só para mim.

Desde o tempo dos Power Rangers que não via alguma coisa dobrada durante tanto tempo. Como o meu alemão ainda está num estado embrionário não percebi nem metade daquilo que se disse no filme, mas percebi a história. Percebi tão bem que chorei. Nesse momento pensei "ainda bem que vim sozinha e ninguém vai gozar comigo por estar a chorar".

 

Der Vorleser ou The Reader é um filme que faz muito mais sentido visto na Alemanha e em Alemão. O filme deveria ser em alemão, na verdade. A acção é repartida por uma série de locais na Alemanha de anos diferentes. Pela primeira vez assisti a uma proposta de dilema relativamente ao Holocausto, uma afirmação do poder de manipulação da literatura, do cinema ou do amor, não sei bem. O que é certo é que, pela primeira vez, o nazismo não foi encarado de maneira simples e extremista, mas sim como uma coisa complexa que tem muito que se lhe diga e diferentes abordagens. Um tema que é universal e alemão, um tema que faz sentido depois de visitar um campo de concentração, mesmo que não Auschwitz, e perceber melhor o que foi o Holocausto. Quem não visitou sairá da sala de cinema, creio, impressionado, incomodado e tocado. Eu saíria, mesmo que não aguentasse o filme todo e assistisse apenas à sequência em que o protagonista visita Auschwitz. Aí senti, por vezes, que estava a ver mais do que precisava. Mas não. Eu precisava de ver aquilo tudo para que o filme me tocasse como tocou. O senhor Stephen Daldry sabe o que faz.

 

Quando o filme acabou, depois de uma boa dose de créditos para secar as lágrimas, saí da sala. Na varanda estava o senhor a espreitar, para se certificar que eu já tinha saído da sala para poder parar a projecção. Eu disse "Danke. Der Film ist sehr gut!" e ele respondeu "schön!". E fui para casa feliz, debaixo de um belo e quente fim de tarde.

...quando os meus planos são estragados. 

 

Fui eu toda contente para a estação de comboios hoje, de máquina atrás, para visitar Jena, uma cidade não muito longe de Weimar, na minha bicicleta nova e cor-de-rosa. Como chego à estação 5 min antes do comboio partir penso "tenho tempo, vou tirar uma fotografia à bicicleta, já que tanta gente quer saber como ela é". Saco da máquina, ligo-a e nada. A máquina não funciona. Provavelmente é só falta de bateria. Ainda assim, estragou-me os planos. Voltei para casa.

 

Agora estou em casa, deprimida, a escrever aqui e à espera que a bateria da máquina carregue.

É a isto que eu chamo "sexta-feira santa".

Ontem já tive o meu primeiro contacto com a rotina académica na Bauhaus, mas só hoje entrei verdadeiramente nela e senti na pele o que é ser aluna de Mediensysteme na Bauhaus.

 

Explicando, ontem fui às apresentações dos projectos de Mediengestaltung e só hoje tive, efectivamente, uma aula. Foi uma aula de Programiersprachen onde vou aprender C++, ou seja, aquilo que queria mesmo fazer. Pena que a aula seja em alemão e eu não consiga perceber nem metade do que o senhor disse. 

Antes disso fui à apresentação dos projectos de Mediensysteme para chegar à conclusão que não posso fazer nenhum porque exigem avançados conhecimentos de Java ou C. Seja como for, valeu a pena a presença na apresentação. Aqui, em Mediensysteme que em Mediengestaltung isto não acontece, as pessoas no fim das apresentações não batem palmas, batem como se estivessem a bater à porta nas mesas. É estranho, é uma espécie de ritual que só a comunidade "sistémica" conhece. E no fim das aulas teóricas, pelos vistos, fazem o mesmo. É estranho mas, de certa forma, simpático. Tenho de ver se pergunto a alguém a história do ritual.

 Não estava à espera de regressar a casa tão cedo. E, por isso, não queria começar a fazer a contagem decrescente porque era demasiado desesperante contar 2 meses. Mas agora falta muito menos e não consigo evitar pensar, várias vezes ao dia, quanto tempo falta para o regresso a Portugal.

 

 

Agora faltam 18 dias.

 

 

Apesar de hoje ter recebido o papel definitivo que diz que a minha morada é "Weimar", só digo "home sweet home" numa terrinha bem pequenina de Portugal...

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