pesquisar   

Sexta-feira, 10 de Abril de 2009
The Reader / Der Vorleser ou A primeira ida ao cinema em Weimar

Ontem fui pela primeira vez ao cinema na Alemanha. Fui sozinha e estive sozinha. Assim se vê quão pequena é a cidade de Weimar. Fui às 17h15 (sim, eu sei que também não é a melhor hora, mas mesmo assim...) a um cinema muito peculiar, não muito longe da minha residência, ver, dobrado em alemão, The Reader, o filme que deu o Oscar a Kate Winslet.

 

Para começar, o facto do cinema ser "peculiar" já deixava adivinhar uma sessão de cinema, também ela, "peculiar". Depois, quando percebi que ia assistir sozinha, a sessão passou de "peculiar" a "quase surreal". 

O cinema onde fui é este. Instalado numa antiga fábrica, é qualquer coisa entre o cinema oita em Aveiro e a Lx Factory. Basicamente, é um sítio que eu descreveria como "buéda indie".

Cheguei ao edifício mesmo em cima das 17h15. Pensava que o filme estaria a começar, afinal os alemães são muito pontuais. Não. Depois de entrar na fábrica, passando por umas grandes cortinas pretas misto de cortinas de teatro e cortinas de entrada de igreja, deparo-me com um pequeno hall com um bar do lado direito, cartazes dos filmes em exibição do lado esquerdo e mais nada. Nem uma viv'alma. Digo "Hallo". De repente surge, numa varanda que me tinha passado despercebida, por cima do balcão do bar, um homem. Ele diz qualquer coisa em alemão, que eu não percebo, e desaparece. Espero alguns segundos e procuro uma maneira de chegar ao novo patamar de onde o senhor tinha aparecido. Encontrei. Depois do balcão há umas escadas. Subo. Encontro o senhor. Ele fala um pouco de inglês. Estava ali sozinho, a enrolar negativos. É ele que faz tudo ali. Trata da projecção, dos bilhetes e de tudo o resto. Disse que gostava de ver o filme. Ele disse "sabes que é em alemão, não sabes?". Eu sabia. Vendeu-me o bilhete e explicou-me onde era a sala. Entrei noutra porta econdida do hall onde a história começou, perto das cortinas, passei por um corredor iluminado por luzes cor de laranja, à moda do Pedro Cabrita Reis e entrei na sala de cinema propriamente dita. A sala não era muito grande e os bancos azuis eram confortáveis. Estava absolutamente vazia. A sessão ia mesmo ser só para mim. Sentei-me mesmo por baixo da janelinha onde nascia a projecção. A sessão e Der Vorleser foram só para mim.

Desde o tempo dos Power Rangers que não via alguma coisa dobrada durante tanto tempo. Como o meu alemão ainda está num estado embrionário não percebi nem metade daquilo que se disse no filme, mas percebi a história. Percebi tão bem que chorei. Nesse momento pensei "ainda bem que vim sozinha e ninguém vai gozar comigo por estar a chorar".

 

Der Vorleser ou The Reader é um filme que faz muito mais sentido visto na Alemanha e em Alemão. O filme deveria ser em alemão, na verdade. A acção é repartida por uma série de locais na Alemanha de anos diferentes. Pela primeira vez assisti a uma proposta de dilema relativamente ao Holocausto, uma afirmação do poder de manipulação da literatura, do cinema ou do amor, não sei bem. O que é certo é que, pela primeira vez, o nazismo não foi encarado de maneira simples e extremista, mas sim como uma coisa complexa que tem muito que se lhe diga e diferentes abordagens. Um tema que é universal e alemão, um tema que faz sentido depois de visitar um campo de concentração, mesmo que não Auschwitz, e perceber melhor o que foi o Holocausto. Quem não visitou sairá da sala de cinema, creio, impressionado, incomodado e tocado. Eu saíria, mesmo que não aguentasse o filme todo e assistisse apenas à sequência em que o protagonista visita Auschwitz. Aí senti, por vezes, que estava a ver mais do que precisava. Mas não. Eu precisava de ver aquilo tudo para que o filme me tocasse como tocou. O senhor Stephen Daldry sabe o que faz.

 

Quando o filme acabou, depois de uma boa dose de créditos para secar as lágrimas, saí da sala. Na varanda estava o senhor a espreitar, para se certificar que eu já tinha saído da sala para poder parar a projecção. Eu disse "Danke. Der Film ist sehr gut!" e ele respondeu "schön!". E fui para casa feliz, debaixo de um belo e quente fim de tarde.



publicado por Undómiel às 13:03
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Comentários:
De joão a 10 de Abril de 2009 às 14:05
tenho o filme aqui e agora deste o último empurrão para o ler :) o facto desta aventura ter sido dentro duma fábrica, numa sessão completamente vazia é.. brutal, mesmo :)


De violeta a 10 de Abril de 2009 às 16:11
Toda essa aventura é a tua cara, deixa-me dizer-te.

Tb vi o filme e gostei bastante, mas, se não te importas, vou colocar um link para o teu post, pq - não "apesar" mas sim "ainda pra mais" - sem teres percebido metade dos diálogos, transmitiste de uma forma sublime a essência do "The Reader". :)



De move a 12 de Abril de 2009 às 21:05
vá, eu tb chorei uma lagriminha (ou se calhar 2 lol)... eheheh.

És a maior, Mauritz! :)


De cardorel a 29 de Abril de 2009 às 10:45
Sem duvida uma descricao muito cativante... As tuas impressoes levam-me a desejar ver o filme ainda com maior premencia. Com os meus melhores cumprimentos. J.


Comentar post