Diziam que Julie and Julia and o "feel good movie of the year". Eu senti-o mais como o "feel like a cliché movie of the year". Isto porque me fez sentir um cliché.
A vinda para Salamanca e o estágio, o início da vida de trabalhadora tiveram uma série de consequências e mudaram, obviamente, o meu modo de vida.
Começar a trabalhar é saber onde vou estar e o que vou fazer durante 8 horas do meu dia, fora horas para higiene e refeições e, portanto, ter muito tempo livre e chegar a casa cansada. Pra já, está a parecer-me um modo de vida muito entediante e pouco entusiasmante. Tive, portanto, de encontrar uma escapatória entusiasmante/anti-stress para "colorir" a minah vida. Há quem entre para o ginásio (que deveria ter sido a minha escolha), há quem arranje namorado/a, etc. Eu descobri o poder terapêutico da culinária. Efectivamente, qual dona de casa não-muito-desesperada, tenho prazer em cozinhar e faço-o também porque me relaxa.
Afinal, sou um cliché e fiquei com vontade de fazer a versão portuguesa daquele Julie/Julia Project mas com recurso a um livro de culinária português, algo tipo Maria de Lourdes Modesto... Dúvido é que tenha paciência para tanto. Cozinhar é relaxante, escrever ainda não tanto... Mas quem sabe...
Há umas semanas fui roubada.
O lado bom da coisa foi ter de caminhar meia Salamanca para saber onde era a polícia e outra meia para, efectivamente, chegar lá. Estava mesmo a precisar de exercício.
Na última semana falou-se muito sobre a Queda do Muro de Berlim. Na última semana eu li muito sobre o muro de Berlin. Na última segunda-feira comemoraram-se os 20 anos sobre a queda do muro.
Nos últimos tempos tem-se também falado sobre a questão dos minaretes na Suíça e do medo da "ocupação islâmica". Ironicamente, por um lado, festejamos a libertação e a união e, por outro, tentamos motivar a divisão. Por um lado assumimos os sinais do tempo e, por outro, tentamos rejeitá-los.
Com a queda do muro festejamos, um pouco, o capitalismo, que parece ter como consequência a globalização. Até aqui todos pareciam importar-se pouco com isso. Toda a gente parece adorar ter lojas da Zara onde quer vá, comparar os preços da Gant em vários países, etc. Mas quando se fala de construir locais de culto islâmico no ocidente ficamos de pé atrás. Quando é preciso assumir uma verdadeira consequência da globalização que não tem a ver com consumir, ficamos de pé atrás.
Definitivamente, ainda há muito a fazer na Europa e no mundo.
Dizia-se, no Público, que "hoje a imagem que estará talvez mais presente na mente das pessoas mais jovens já não é a da festa de Berlim mas a das Torres Gémeas de Nova Iorque. O que é feito das esperanças numa nova ordem mundial em que acreditávamos em 1989?". E a forma como faz sentido preocupa-me. O artigo está aqui.
Nunca tinha estado num consolado, até hoje. Até tinha alguma curiosidade. O que encontrei foi uma coisa bem diferente do que estava à espera, algo quase kafkiano, diria.
O prédio onde está instalado o consulado fica entre um restaurante chinês, um museu taurino, uma loja de desporto e uma loja de roupa interior feminina. É um prédio de habitação. Cada campaínha indica o andar e a letra que corresponde a cada apartamento, excepto a do consulado. A campainha do consulado tem, por cima do mostrador do andar e letra, de maneira a que estes não sejam visíveis, um pequeno papel escrito à mão e já ligeiramente borratado pela chuva. O papel diz "consulado". A campaínha, na verdade, nem é necessária porque a porta está aberta.
O hall de entrada é amplo e lembra, por qualquer razão, os anos 70. Existe um cubículo que diz "porteiro", bem iluminado, mas não existe porteiro. Junto à janelinha desse cubículo, numa placa dourada pode ler-se, finalmente, "Consulado de Portugal" 3º qualquer-letra (já não me lembro qual era, exactamente). De ambos os lados desse cubículo, e de forma quase perfeitamente simétrica, existem escadas e um elevador. O elevador tem em todo o lado menos no indicador de andar actual um ar 'normal/velho'. No mostrador do andar parece super moderno.
O terceiro andar tem um pequeno corredor cujo centro está marcado pelo elevador. Há 2 ou 3 portas. A do lado direito, fechada, tem uma placa prateada, dum tamanho pouco mais pequeno que o A4 do papel, com a esfera armilar rodeada por louros e a inscrição "Consulador de Portugal" e o horário de funcionamento. O horário foi corrigido duma forma muito rudimentar. Era preciso tocar à campaínha. O som da campaínha era o som normal de uma campaínha de uma casa. A porta não abriu de imediato. Começaram a ouvir-se passos atrás da porta. Imaginei alguém ainda meio despenteado, de chinelos e robe a abrir a porta. Na verdade, atendeu-me um senhor daqueles que põe os óculos na ponta do nariz para olhar por cima deles, barriguinha "à portuguesa", cerca de 60 anos e indumentária própria de senhor de 60 anos friorento. Esqueci-me de reparar se estava ou não de chinelos. Entrei e conversei com o senhor. Nunca saímos no hall de entrada. A alcatifa, verde-cinzento com ar velho combinava com o ar do senhor. E os panfletos espalhados em cima do móvel do hall também. Eram alusivos a vários museus e atracções turísticas de Portugal e pareciam velhotes. O senhor tinha uma voz mais ou menos grave e um pouco rouca. Era português e aquela parecia ser a sua casa. Foi estranho.
Lembro-me de há uns meses atrás falar com alguém sobre a maneira como as pessoas dizem sempre "ah, eu não tenho tempo para isso". "Isso" seriam coisas como ir ao ginásio, fazer desporto ao ar livre, comer bem, sair com os amigos, ir ao cinema...
O meu interlocutor dizia que a falta de tempo era uma desculpa esfarrapada e que quem realmente quer fazer coisas arranja, de alguma maneira, tempo para elas. A minha posição não era tão intransigente mas ia numa direcção muito próxima dessa. Hoje, percebo que não é bem assim.
Não é que "as pessoas crescidas" não tenham, efectivamente, tempo para nada. É que o trabalho é tão desgastante que o tempo que as pessoas tem livre, efectivamente parece nem merecer o título de "tempo". Agora que sou "uma espécie de trabalhadora do tipo 8 horas por dia" percebo. Ao fim de 8horas de trabalho, mesmo que sejam horas passadas sentada em frente a um computador, são altamente desgastantes. Quando chegam ao fim eu dou graças a deus e declaro-me esgotada, incapaz de fazer seja o que for nos próximos tempos.
Há umas semanas ponderei a hipótese de ir para um ginásio. Como as pessoas de que falava no início deste post o que me passou pela cabeça foi "não tenho tempo". E tenho pensado no assunto. Na verdade, depois de sair do trabalho o ginásio continua aberto durante um par de horas. Em termos absolutos, eu tenho tempo. Mas não conseguiria. Sabe-me muito bem o regresso a casa com o fresco a dar na cara e o nariz a congelar mas algo que exigisse mais que uma mente absolutamente vazia é impossível no fim de um dia de trabalho.
Não ando a ser explorada nem nada do género. Mas começo a achar que, ou não fui feita para trabalhar num sítio fechado ou então não sei trabalhar.
Até é estranho pensar que há sitios onde se espera para votar. Na terrinha só não é chegar, votar e andar porque alguns candidatos estão à porta das urnas a fazer "operação de charme", só para não lhe chamar "campanha à boca das urnas".
O dia de reflexao é o dia anterior, parece que no próprio dia vale tudo! Curiosamente, 2 dos 3 partidos candidatos aqui na terrinha tinham uma representação deste género no momento em que eu fui votar. Um deles, para não deixar dúvidas, trazia exactamente a mesma roupa que usou nas fotografias dos cartazes, um fato com gravata cor de laranja, para ninguém esquecer em que partido votar.
O charme mais falhado foi o de um candidato que decidiu arrancar o meu voto. Pena que não tivesse percebido que eu não estava a chegar mas sim a ir embora e que já tinha votado. O senhor candidato começou a falar comigo julgando que eu era a minha irmã e que ela já teria idade para votar (que não tem). Eu não envergohei o senhor e fiz de conta que nao percebi. Também não tinha votado nele, era o mínimo que podia fazer...
Se foi assim a primeira que votei numas autárquicas, imagino como serão as seguintes!
Primeiro, Espanha fica à frente da Alemanha no Human Development Index, segundo a ONU. (A ler aqui)
Depois, Barack Obama recebe o Nobel da Paz, com 9 meses de governo, obviamente insuficientes para assumir políticas de paz e notar os seus efeitos.
Com um mundo assim parece normal que em Espanha só se fale do Cristiano Ronaldo.
Não por ter feito anos há pouco, não por estar a trabalhar, não por ter acabado a licenciatura... Mas porque já não me apetece sair à noite, quando saio volto a casa cedo e é difícil encontrar uma pessoa que me desperte alguma curiosidade (interesse).
... fala-se de maneira tão eloquente que fiquei mesmo com vontade de ir ao Curtas Vila do Conde.
Para o contágio, clical aqui.
... é a cidade maior do grupo de cidades que já habitei e ainda não preciso de usar transportes públicos.
Será que algum dia me vou mudar para uma verdadeira "cidade grandinha"?