Ler sobre questões de género e video jogos leva sempre a discussões sobre género e brinquedos. Falar dos brinquedos da infância de todos põe-me, obviamente, a pensar naqueles que foram os meus brinquedos preferidos.
Os meus brinquedos preferidos antes dos 6 anos são surpreendentemente reveladores da pessoa que sou hoje. Antes dos 6 anos gostava especialmente de um telefone azul, branco e vermelho, com design antigo; de um boneco a que chamava "chorão", demasiado parecido com um bebé a sério; e um mini trem de cozinha, que usava para coziinhar com água, terra, flores e folhas.
Olhando para mim, 18 anos mais tarde:
Acho que tenho um fraquinho por países com problemas psicológicos.
Portugal, um dos, senão 'o', meu país preferido, funciona com base na corrupção e tem por canção nacional o Fado, a coisa mais melancólica que existe no planeta Terra. Além disso, Portugal vive ainda em constante depressão pós-glória (ou pós-colonialismo - em Portugal 'glória' e 'colonialismo' parecem sinónimos).
A Alemanha, país fascinante, luta há mais de 10 anos pela reunificação e integração da gigante massa imigrante ao mesmo tempo que segura o barco União Europeia. Até agora, parece estar a ser bem sucedida nas últimas duas tarefas, não tanto na primeira.
A Bélgica, descobri esta semana, é o terceiro país na lista dos maravilhosos países com problemas psicológicos. A Bélgica tem o tamanho de uma ervilha e, mesmo assim, tem espaço para grandes divisões, 3 línguas oficiais e consegue estar sem governo há mais de um ano, apesar de acolher os orgãos administrativos da União Europeia. Este cenário é, no mínimo, irónico. A separação entre as várias regiões é de tal maneira forte que até a representação Belga na eurovisão é alternada entre as partes de língua francesa e holandesa. No meio disto tudo, ainda há espaço para a afirmação de uma cultura de origem germânica honesta e cidades-museu que parecem tiradas de contos-de-fadas.
Ainda não cheguei aos 23 anos, mas à medida que os meus amigos que nasceram no mesmo ano que eu vão chegando, a minha reflexão vai progredindo. Não é que goste de sofrer por antecipação, é mais que gosto de pensar em coisas que não ajudam a mudar o mundo.
Essas minhas sessões de pensamento mais ou menos inútil conduziram-me à seguinte conclusão: "os 23 anos fazem parte do 'no man's land' das idades". O 'no man's land' das idades é, basicamente, o período que inclui as idades "sem personalidade". Os 20s marcam a transição entre a juventude e a adultez. Quando convém, diz-se que uma pessoa de 20 e poucos anos é um jovem, quando não convém, diz-se que se trata de um adulto responsável.
Durante a infância, dizem, a nossa consciência ainda não nos permite ser responsáveis porque ainda estamos a aprender o verdadeiro significado do conceito "responsabilidade". Depois disso, durante os "teen" temos direito a fazer dramas para aprender o que é isso de responsabilidade e a sociedade perdoa-nos as crises a que chama de "crises da adolescência". Depois disso, as crises começam a ser um caso mais sério e a responsabilidade é uma característica essencial do cidadão. Ainda assim, é comum falar-se da "crise dos 30" ou da "crise da meia-idade", etc. Nunca se ouve falar da "crise dos 20" ou da "crise dos 23".
Conclui-se, portanto, que o período que forma a "no man's land das idades" corresponde ao período da vida em que o potencial de felicidade atinge o seu pico. É o único período em que a consciência totalmente desenvolvida e conhecedora do conceito "responsabilidade" se consegue descolar das crises. Depois da crise da adolescência, sendo olhado como uma pessoa a ter em conta e com um contributo a dar ao mundo, mas ainda longe da crise dos 30, alguém com uma idade entre os 20 e os 25 pode ser a pessoa mais feliz do mundo.
Por outro lado, pensar que chegar ao 23 me deixa um ano mais perto dos 25 e do fim do potencial máximo de felicidade deixa-me num estado próximo daquilo que se poderia chamar de "crise."
... começam a tornar-se estranhos. Na verdade, não é bem aos hábitos de viagem que me refiro, mas os padrões que definem e caracterizam as minhas viagens começam a transformar-se em hábitos. Hábitos esses que eu gostava de não ter. Falo, nomeadamente, do meu mais recente hábito de perder alguma coisa de cada vez que viajo. Apercebi-me deste padrão na minha última viagem, até à Finlândia.
No espaço de um ano já perdi a carteira e o guarda-chuva em Veneza, a tampa da lente da máquina fotográfica em Dusseldorf e o lenço/echarpe/manta de piquenique em Helsínquia. O bright side deste padrão é que a tendência ser de perder coisas cada vez menos valiosas. Pode ser que, da próxima vez, o valor perdido seja 0 e se traduza em não perder nada.
Estive, há umas semanas atrás, na Finlândia, país onde, dizem, nasceu a sauna. A ideia de entrar numa sala para transpirar, confesso, sempre me soou meio ridícula. De maneira que nunca tinha feito sauna. Apesar disso, quando viajo, acho importante reter o máximo da cultura do país de acolhimento. Por isso, experimentar a "verdadeira sauna" é obrigatório para quem vai à Finlândia. Nunca antes me tinha questionado realmente acerca dos efeitos e motivações que conduzem as pessoas à sauna. Resumidamente, sauna sempre foi uma matéria que me passou ao lado.
Antes do Natal, comecei a minha "educação para a sauna" com o filme Steam of Life. Este documentário mostra muito sobre o que é a sauna na Finlândia e foca aquilo que, também para mim, é o seu verdadeiro significado: as relações entre as pessoas.
A sauna não é só uma sala aquecida a lenha ou a electricidade onde as pessoas se sujeitam, nuas, ao calor e ao vapor para melhorar a circulação e purificar o espírito. Em vez disso, a sauna é um dos locais, talvez devido à temperatura, talvez devido à exibição dos corpos, onde as pessoas, normalmente frias, esquecem as normas escandinavas de relacionamento e falam abertamente sobre tudo, incluindo assuntos pessoais ou sentimentais.
É um cliché acusar de frias as pessoas da escandinávia e, especialmente, da Finlândia. No entanto, o cliché não é totalmente infundado. Não é que seja impossível aproximarmo-nos à primeira tentativa de um Finlandês, mas é certo que não é a coisa mais fácil do mundo ficar totalmente à vontade antes de estar com um finlandês umas quantas vezes. A regra muda, no entanto, se se fizer sauna com um finlandês.
Estive cerca de duas semanas na Finlândia, em férias. Passei cinco dias em Turku, a quinta cidade do país, e sete dias em Helsínquia. Comecei por Turku, Capital Europeia da Cultura. Aí, fiquei em casa de um casal, numa casa com sauna. Antes de ir não conhecia nenhum dos donos da casa.
Em Helsínquia estive num apartamento sem sauna, que partilhei com uma rapariga Finlandesa que tinha conhecido na Dinamarca. Já tinha estado com ela durante umas horas antes de passar estes dias com ela, em Helsínquia.
Mal cheguei a Turku, depois de jantar, fui fazer sauna, pela primeira vez, com a dona da casa e uma amiga dela. Nunca tinha falado com nenhuma delas. Uma vez na sauna, no entanto, a conversa fluiu estranhamente bem. Poucas horas depois parecia que sabiamos tudo umas sobre as outras. Os dias seguintes passaram rapidamente, já que havia sempre algo de que falar e a empatia criou-se de imediato, na sauna.
Em Helsínquia, pelo contrário, a conversa nunca chegou ao ponto de naturalidade da conversa em Turku, apesar de já conhecer a rapariga que me deu guarida. Com ela, mesmo ao fim de vários dias, a conversa soou sempre mais a monólogo e eu tive de me esforçar para evitar silêncios desconfortáveis.
Até agora, a sauna de Turku continua a ser a única que experimentei. De futuro, se voltar a experimentar, vou estar mais atenta a este poder oculto de aproximação das pessoas.
Estou mesmo a acabar de acabar de ler Kafka à Beira-mar. Ainda estou meio confusa. Mas há duas imagens ligadas ao livro que não me saem da cabeça:


O festival eurovisão da canção (adoro o nome em português) não tem, hoje, a importância (ou será valor?) que tinha há umas décadas atrás. Pelo menos em grande parte dos países tidos como "fundadores". Prova disso é que, sempre que alguém diz gostar da eurovisão, o mais provável é ser gozado. É o que acontece comigo. Aliás, já dei por mim várias vezes a dar desculpas porque eu própria me sinto culpada por gostar da eurovisão. A minha desculpa recorrente é "sofri uma lavagem cerebral", desculpa que tem o seu quê de verdade e o seu quê de mentira.
A verdade é que, se hoje presto especial atenção ao festival e não uma "atenção média" é porque, durante a Licenciatura, tive um colega de turma que tem um grande poder de persuasão no que diz respeito à Eurovisão. Ele provou que, de facto, é possiível convencer alguém a gostar da eurovisão mais do que de muitas outras coisas, afinal o festival, se não for mais nada (o que não é verdade), é incrivelmente divertido. A parte falsa da minha desculpa é que, apesar de ter sido persuadida no sentido de me tornar "fã a sério", a escolha foi minha. Eu poderia não ter cedido aos "ensinamentos" do "meu evangelizador eurovisivo" mas decidi cair em tentação e assumir que há ali qualquer coisa a que vale a pena prestar atenção.
No ano passado tornei-me membro da OGAE Portugal, associação oficial de fãs da eurovisão. Este ano fui a Dusseldorf assistir ao festival, ao vivo.
Percebo que muita gente seja anti-eurovisão, mas também acho que se criaram muitos preconceitos que deixam envergonhados potenciais fãs, o que é uma pena. A eurovisão não é um fenómeno mas é, certamente, digna de análise. E o que é mais maravilhoso acerca dela é que essa análise pode olhar a todo um conjunto de elementos. Desde as músicas e países a concurso até à dimensão do espectáculo televisivo, passando pela política, a eurovisão tem muito que e lhe diga, por muito que a queiram ignorar.
As minhas férias começaram há alguns momentos. Imediatamente fui tomada por uma estranheza inesperada: já passou quase um ano desde que cheguei à Dinamarca e tenho, em princípio, o meu primeiro ano de mestrado pronto. É muito estranho.
Não que nada tenha acontecido, pelo contrário. A verdade é que tudo parece ter acontecido muito depressa. Quase depressa demais. O momento das decisões aproxima-se demasiado depressa. E o meu medo do futuro também.
Ser criança é tão mais fácil que ser "crescido".
Há dois dias atrás fui ao consulado português em Copenhaga para pedir informações sobre o processo de voto à distância. Nesse dia, falei sobre o voto antecipado à senhora que me atendeu e ela disse que a única forma de votar nas próximas eleições era através do recenseamento aqui e que o último dia era o dia seguinte, ontem.
Ontem, voltei ao consulado português em Copenhaga, munida de todos os documentos exigidos para o recenseamento. Cheguei cheia de satisfação por estar a cumprir um dever cívico e a contribuir, modestamente, para o futuro do meu país. (este pensamento fluía na minha cabeça ao ritmo do fado) É também cheia de satisfação que toco à campaínha, abro a porta e me dirijo ao balcão onde me tinha apoiado no dia anterior. A senhora encarregue de atender o público era a mesma que me tinha informado no dia anterior. E lembrava-se de mim. Lembrava-se tão bem que mal eu disse "boa tarde", ela sabia ao que é que eu vinha e foi directa ao assunto: "ai, desculpe, mas o prazo afinal acabava ontem. Recebemos uma nova ordem de Lisboa...". Apeteceu-me berrar à senhora. Em vez disso, voltei a falar do voto antecipado que, no dia anterior, ela tinha descartado. Ela faz um telefonema: "está aqui uma senhora estudante em Copenhaga, que não é erasmus e leu sobre o voto antecipado". Depois de pousar o telefone diz-me "tem razão. Contacte-nos no fim de Abril e pode votar antecipadamente. Precisa, para isso, de trazer um comprovativo de que é estudante aqui e o seu número de eleitor".
Mas que raio de serviço foi este? A eficácia portuguesa surpreende-me diariamente.